Pedaços de vida

A menina faz um sorriso tão bonito e pacífico, tão generoso e puro, que me encanta e me conquista de imediato e para sempre. Dá-me o melhor de si, sem que eu tenha sequer pedido. Não sei como retribuir tão generosa dádiva. E se o mundo fosse todo assim, um mundo em que todos damos de imediato e sem condições, a alguém que ainda nem conhecemos, o melhor que temos?

Aproximo-me da menina e, com gestos que pressinto envergonhados, pergunto-lhe se posso tirar-lhe uma fotografia; acena que sim, mantendo o sorriso imperturbável. Fixo o seu sorriso para sempre, não apenas no cartão da máquina mas na minha memória, naquilo a que chamam alma e onde guardamos tudo o que nos faz viver. Depois, chamo a menina e mostro-lhe o seu retrato. Olhamos em silêncio para o ecrã da máquina; vemos um sorriso, partilhamos um sorriso, perpetuamos um sorriso. O momento dura uma eternidade, que é o que sempre acontece aos momentos que guardamos na alma.

Chamam-me a colecionadora de sorrisos, mas por vezes sinto-me mais que tudo uma guardadora de sorrisos; sinto que transporto comigo pedaços de alma de tanta gente, guardados na minha própria alma; na alma que vou construindo dia-a-dia com tantos pedaços de vida em forma de sorrisos.

Texto | Paulo Kellerman

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Colecionadora de Sorrisos

8:30. Passagem pelo raio X. Carimbo no bilhete. Estou pronta para entrar naquele conjunto de paralelepípedos, com vértices polidos e unidos pelo cheiro da creolina. O branco, o azul e o verde dão cor àquele que me conduzirá de Samarcanda, a emblemática cidade da Rota da Seda, rumo a Tashkent. O meu destino é a capital daquele país com nome estranho e difícil de pronunciar – pelo menos à primeira tentativa – Uzbequistão.

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Um misto de nostalgia e fascínio apodera-se de mim.

“A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com descanso, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de aço, assobiando e gozando a beleza da terra e do céu”. Não é igual à experiência de Eça de Queirós em “A Cidade e as Serras”, mas é assim que me sinto.

A carruagem que me pertence está quase vazia. É um convite para percorrer o comboio de lés a lés.

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Aqui viajam famílias que, ao fim de escassos minutos, são minhas também. A vontade de socializar ultrapassa toda e qualquer barreira linguística. Os sorrisos dourados, tão característicos do povo uzbeque, são linguagem universal para a interação. Partilha. Descoberta.

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O intenso aroma do chá acabado de fazer percorre os estreitos corredores e perfuma as carruagens. O branco dos lençóis serve de mesa de jogo ou de descanso para as horas de viagem que ainda restam. A timidez é vencida pela curiosidade. Sento-me para fotografar e retribuir a generosidade dos sorrisos e dos abraços das crianças. «Portugália», assim chamam ao país, que é meu, plantado à beira-mar.

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11:45. Regresso ao lugar inicial com um pão oferecido. Aproveito o tempo que me resta. O leve balançar da locomotiva fecha-me os olhos e absorvo as vivências. Dizem que as pessoas têm impressões digitais únicas e irrepetíveis, uma marca distintiva: os dedos (e o toque) de cada indivíduo são únicos e irrepetíveis, e tornam cada pessoa precisamente única e irrepetível. É o que dizem e eu acredito. Mas creio que existe uma característica ainda mais distinguível. Se as impressões digitais são a característica diferenciadora de cada corpo, qual será a de cada alma? O sorriso, penso. Porque, apesar de ser uma ação do corpo, exprime e materializa um sentir da alma. Como se fosse a janela da alma. É nisto que me foco durante a viagem, perante o desfile de sorrisos com quem me brindam. Lembro o meu velho projeto de criança, de quando ainda era mais criança: partir pelo mundo e descobrir todos os sorrisos possíveis. Colecionar sorrisos. Lembro a minha resposta tonta, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande: colecionadora de sorrisos.  E sorrio, junto o meu sorriso ao de todas estas pessoas que, apesar de não conhecer, sinto muito próximas de mim. Abriram as suas janelas.

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12:30. O comboio chega a Tashkent.

[Parceria nas palavras: O coleccionador de abraços, Paulo Kellerman]

Khei-va

Segundo a lenda, contada por um taxista autodidata no inglês, o nome da cidade nasceu da voz do filho de Noé. Como a terra era muito seca, após ter escavado um buraco encontrou água e quando bebeu proferiu: Khei-va  (que boa).
Lugar integrante da Rota da Seda. Madraças, mesquitas, mausoléus e minaretes decoram o interior das muralhas desta cidade, uma das mais antigas da Ásia Central, reconhecida como Património Mundial pela UNESCO em 1990.
Não descurando o museu a céu aberto, hoje perco-me nas ruelas labírinticas e cruzo-me com as brincadeiras das crianças, com as bicicletas abandonadas mas cúmplices de muitas aventuras, com os sorrisos, com a simpatia genuína por vezes contaminada por uma certa timidez. É esta desordem organizada que me seduz; é a possibilidade de descoberta e surpresa que surge ao virar da esquina que me encanta.
Bem-vindos à fascinante Khiva!

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Islândia IV

Um dos “poderes” dos sonhadores é viajar, com frequência, sem sair do sofá. Viaja-se pelo ainda desconhecido ou volta-se a locais antes visitados.

Imbuída pelo frio que se faz sentir, apeteceu-me ir até à Islândia, mais concretamente a Leirhnjúkur,  que faz parte da região vulcânica do Krafla. Se por um lado a Terra do Gelo com os sedutores  glaciares encanta qualquer um, a parte  correspodente à Terra do Fogo não se deixa ficar atrás.  A intensa atividade vulcânica da Islândia ajudou a moldar a sua deslumbrante paisagem. Em Leirhnjúkur percorro o que o interior da Terra ofereceu. Caminho sobre um vulcão ativo. O solo está quente. Durante um par de horas perco-me entre os campos de lava e deixo-me levar pelo mistério que as fumarolas fazem sentir. É a Mãe Natureza a conduzir este trilho soberbo.

Curiosidades:
A primeira erupção ocorreu entre 1724-29, conhecida como os Fogos de Myvatn. Após 250 anos de dormência, o Krafla entrou em erupção de 1975 a 1984, período denominado  de Fogos do Krafla.

Nos Açores, os campos de lava tão característicos das pérolas atlânticas e formados pelas erupções vulcânicas, são vulgarmente conhecidos por “Mistérios”, atendendo a que os habitantes não tinham justificação para tais fenónemos naturais.

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Nazaré

“Quartos; Rooms; Zimmers; Chambres”, invadem as varandas ou as mãos das senhoras das sete saias que dizem em inglês, com acento nazareno: “come here, my love!”
É a autenticidade e o preservar das tradições que me encantam nesta terra. O cheiro a mar que teima em salpicar o rosto dos que por lá passeiam, quase como se de água benta se tratasse. As mãos e os rostos das senhoras que vendem peixe seco não enganam. São mapas genuínos de vida. Estão vestidas a rigor com as suas saias, tantas quantos os dias de semana, lenço na cabeça e libras a dourar as orelhas. São bonitas. Desculpem… São muito bonitas e gentis. É a Nazaré.

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Escócia

Poder terminar 2017 e receber o novo ano a fazer aquilo que mais gostamos é um privilégio. A gratidão vai crescendo e ganhando formas. Tem curvas de sorriso e a força dos abraços apertados e partilhados.

Há muito que a Escócia estava naquela lista-sem-fim-de-sonhos, sempre disponível para imprevistos e surpresas. No dia que chegasse esta viagem sabia que não se tratava apenas da descoberta de um novo país. Os sentidos e a memória seriam postos à prova, com muita frequência. Há um toque de Islândia e um outro de Açores. Há o desafio de conduzir à esquerda da faixa de rodagem, à direita do automóvel e, como se a lateralidade não estivesse confundida o suficiente,  as mudanças são metidas com a mão esquerda. Desafio superado com distinção e gargalhadas imensas.
Se as cidades são encantadoras, como Stirling e Edimburgo, é a natureza que impera e aquece a alma. Partir de Glasgow numa manhã brindada com um forte nevão e conduzir até Portree, disse ser das estradas mais bonitas que alguma fiz. Menti. Contornar a ilha de Skye é uma perdição. Ir até Inverness outra imensidão de beleza. As paragens são tantas quantas as vezes que o deslumbramento toma conta de nós. Para os amantes de caminhadas, a Escócia oferece um vasto leque de trilhos marcados para nos ‘perdermos’ dias a fio.
Dificilmente quaisquer palavras ou fotografias farão jus à magia que brota deste país.
Aqui fica o convite, na forma de imagem, para um dos meus verbos favoritos: IR; para voltar, os que já lá foram; e para os indecisos, estão à espera de quê?

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Castelo de Eilean Donan

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Castelo Dunnotar

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