Resiliência humana

Hoje em dia inúmeras aldeias portuguesas dão lugar ao abandono. Algumas casas estão fechadas. Outras desamparadas. Os pouco habitantes que por lá subsistem vivem de memórias. Ouço com atenção a Dona Irene contar que tem dois filhos e, algo confusa quanto ao número de netos, conclui que é avó de dois meninos e uma menina. Partiram em busca de uma vida melhor.
Cabaços tem apenas dois moradores. As galinhas e os patos passeiam pelos caminhos e fitam o olhar, pois não passamos de uns intrusos. O cheiro intenso a animal (e não só) perfuma a aldeia deserta.
– Quando precisa de algo, a que localidade se dirige? E quanto tempo demora?
– Arouca. Quanto tempo?! Não sei quanto é, mas é muito.

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País encantado

Por norma descuramos locais idílicos nas imediações da área onde vivemos (ou nascemos). Alegamos a repetida “desculpa”: ah e tal, é aqui ao lado… um dia destes vou até lá! Não se trata de falta de interesse, mas sim aquele sentimento absoluto que um dia vou mesmo até lá. A verdade é que este comportamento fez com que só recentemente entrasse  por uma das cinco portas do Parque Nacional da Peneda-Gerês  – Porta do Mezio – e, após escassos minutos, chegasse  ao Soajo, uma das mais típicas aldeias portuguesas, pertencente ao concelho de Arcos de Valdevez, no Alto Minho. Esta aldeia situa-se numa das vertentes da Serra da Peneda, inserida no único parque nacional do país. Nos ditos escassos minutos, que ainda perduram, a paisagem toma conta de mim. Entre vales e montes, sobranceiramente avista-se o rio Lima.
A aldeia do Soajo tem como principal atração o conjunto de espigueiros de tipo galaico-minhoto, erigidos sobre uma laje granítica, usada pelo povo como eira comunitária, perfazendo um total de vinte e quatro, sendo o mais antigo de 1782. As cruzes no topo de cada um invocam a proteção divina do que lá é guardado. Parte destes espigueiros são ainda hoje utilizados pelas gentes da terra.
Desde 1983 que o conjunto de espigueiros do Soajo está classificado como Imóvel de Interesse Público pelo IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico).
A vida estruturada em torno do princípio comunitário  sempre foi um dado muito importante nesta aldeia.  Nos dias que correm, a feira, que se realiza todos os primeiros domingos do mês, ainda é motivo de convívio para as gentes da terra.

Atualmente comemora-se o dia de tudo e mais alguma coisa. Não sou particularmente adepta destas comemorações, no entanto, parece-me relevante salientar que a 18 de abril de 1982, e aprovado pela Unesco no ano seguinte, foi criado o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, com o objetivo de “sensibilizar os cidadãos para a diversidade e vulnerabilidade do património, bem como para a necessidade da sua proteção e valorização. Celebrando o património nacional, comemora também a solidariedade internacional em torno do conhecimento, da salvaguarda e da valorização do património em todo o mundo”.

Parece-me que o melhor é deixar de lado a frase “um dia destes…” e partir à descoberta, quer seja ao lado de casa, quer seja um pouco mais distante. O importante: ir.

Sejam bem-vindos ao Soajo!  E já agora, ‘biba’ o Minho! ‘Biba’ este país encantado, de nome Portugal!

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Aldeias com história e estórias

Sempre gostei de (quase) tudo o que é azul. Digo quase mas, na verdade, não me lembro de algo que seja desta cor e não goste. Julgo que houve uma certa influência clubística para esta minha eleição. (há que reconhecer que aquele azul do F.C.P. é bem bonito! Obrigada, Pai, por tão bom gosto!)

Há cerca de um ano passei nesta aldeia e o meu olhar fixou-se neste banco de cor azul, à porta de uma casa com a barra e o portão igualmente azuis. Estava deliciosamente encantador. Entre a timidez e o fascínio perguntei se podia tirar uma fotografia. As senhoras esboçaram um sorriso e disseram prontamente “sim”. Ganhei o dia!
A aldeia é apresentada como sendo a aldeia mais portuguesa do Ribatejo – Azinhaga – a aldeia natal de José Saramago. As senhoras são as ribatejanas mais bonitas que conheci desde que cá estou.
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Recentemente, no Alentejo, após uns quantos quilómetros nas pernas, chegámos a uma aldeia… E que aldeia! Tão bonita que é!  Para nos receber, três senhores da terra, sentados num banco, encostado a uma casa branca com a barra azul, claro! Uma vez mais não resisti.
– Posso tirar uma fotografia?
– Pode.
O Sr. Manuel (à esquerda, na foto abaixo), perguntou (e respondeu): sabe como se chama esta terra? Messejana. E sabe o motivo? Aqui havia uma prisão e antigamente prisão dizia-se masjana (origem árabe). Está a ver este café aqui ao lado?! A prisão era aí.
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Como não há melhor guia turístico que as gentes da terra, seguimos a sugestão do Sr. Manuel e subimos até à igreja. Tem um miradouro que nos rouba as palavras. É difícil descrever o que dali se vê e, mais importante, o que dali se sente.

Portugal é (também) um interior cheio de história e estórias. A idade passa pelos poucos contadores que restam. As aldeias ficam desertas. Tenho esperança que a descentralização se faça sentir e que o encanto do interior esquecido, deste nosso país, ressuscite e se preserve.

Heróis da terra

O sol ardente dá cor ao rosto marcado pela vida. As mãos calejadas, que seguram o pequeno cajado, herança de seu avô, acompanham as palavras que, após alguma reserva, se soltam. Este filho do campo é um contador de histórias. E de estórias. Nesse mesmo instante o relógio parou e iniciou-se uma deliciosa viagem no tempo, ao som da voz serena e pausada do senhor António, o Pastor, como é conhecido. A seu lado o fiel companheiro de sempre. No verde infinito, mais de uma centena de ovelhas. Um cenário real e perfeito.
“Toda a minha vida fui pastor.” Há heróis do mar, mas também os há da terra.

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Estrela, a majestosa

Hoje passeamos pela Estrela das serras. A minha vertente nómada faz nutrir um carinho especial por esta serra. Durante quatro anos vivi nos seus “braços” e foi aqui que fiz a primeira caminhada (Covilhã – Torre – Covilhã). É nela que se situa o ponto mais alto de Portugal Continental, atingindo, na Torre, os 1993 metros de altitude.

“(…) As minhas personagens perdem-se na cidade e vão depois reencontrar-se a si próprias no silêncio das serranias. Porquê a importância da montanha? Porque ela é ascensão, é um lugar habitado por deuses. Porque ela propicia ao homem a pergunta essencial da sua vida: há sentido na terra para a humanidade? A montanha tem uma subida e uma descida. Simbolicamente, ela é a síntese dos contrários: de um lado, o homem frágil e insignificante. Do outro, a força majestosa e superior. O sonho é a vontade que assiste ao homem de se transfigurar, de se transcender e subir tão alto como os próprios deuses.”, disse Vergílio Ferreira, o escritor que nasceu em Melo, pequena localidade pertencente a Gouveia.

Sejam bem-vindos à Serra da Estrela!
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Rabo de Peixe, terra de heróis do mar

Entrar em Rabo de Peixe é percorrer ruas estreitas com pessoas sentadas à porta das casas, a conversar ou simplesmente a ver o tempo passar; é ver o preparar das redes de pesca para serem lançadas ao mar e aguardar que este devolva aquele que será o sustento para a família numerosa; é ouvir música e ver pessoas a dançar e cantar, alegres;  é ver crianças, algumas descalças, a jogar à bola ou a brincar. Entrar em Rabo de Peixe é  respirar e sentir o orgulho de lá ter nascido.

Com cerca de 9700 habitantes, esta vila, na costa norte da ilha de São Miguel, no concelho da Ribeira Grande, é uma das principais comunidades piscatórias açorianas, conhecida ainda como a mais pobre da Europa.

Além do sangue, corre-lhes música nas veias. Foi em 2005 que nasceu a Orquestra de Iniciação ao Jazz – Oi.Jazz. Esta “assenta num modelo de formação musical com um cariz de intervenção social, que possa levar a cultura, a arte, a música aos meninos de Rabo de Peixe, com um sentido transformador, de valorização e enriquecimento pessoal. Ao tocarem um instrumento musical numa orquestra a sua auto estima, confiança, valores e atitudes podem ser desenvolvidos de uma forma íntegra e socialmente positiva.”

Às artes que tão bem fazem nesta terra, como a pesca e a música, Vhils  juntou o seu contributo, dando vida às paredes e, deste modo, homenageando as suas gentes. Em 2013, no âmbito do Walk & Talk (festival anual de artes baseado na criação cultural, nos Açores, e que já conta com seis edições) cravou o rosto do Senhor Bonança, o mais antigo pescador de Rabo de Peixe e sobrevivente de um naufrágio em noite de pesca. “O Senhor Bonança não queria que o retratassem, mas a mulher, a Senhora Maria dos Anjos, convenceu-o e disse “vamos fazer isto pela arte”, conta Diana Sousa, que acompanhou a pesquisa por estas histórias com Vhils.”

Para Miriam, Rabo de Peixe é:

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