Privilégios…

Podem clicar no play?

Agora sim, preparados para sentir…

Três  e meia da manhã. O despertador toca e, sem qualquer hesitação, saltámos da cama. Espera-nos um dia longo. Espera-me o dia que mais anseio desta viagem… Aqueles castelos de areia que construía em criança, na praia de Moledo, ganham, após algumas décadas, corpo… e magia. Sentada “nas ameias da torre de um destes castelos e rodeada por outros tantos” vou receber a energia do sol a nascer.
Partimos de Kerman rumo ao deserto Dasht-e Lut, no sudeste do Irão.  Ainda de noite, após 130 km de viagem, chegámos ao deserto onde em 2005, segundo medições da NASA,  se registou aquela que foi a maior temperatura alguma vez atingida na Terra: 70,7 graus Celsius. Chegámos mais precisamente à zona dos Kaluts, os ditos “castelos de areia”, formados por ventos fortes que transportam sedimentos, provocando erosão em grande escala. Este fenómeno torna estas formações em algo que não existe em nenhuma parte do mundo.
Caminhámos na areia até ao cimo de um dos “castelos”. Cada uma ocupou a sua “ameia”. Fez-se silêncio…
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Sete da manhã. Senti que tinha ganho o dia, a semana, o mês, o ano… sentia-me a maior privilegiada deste planeta. Este foi um dos momentos mais mágicos desta e de todas as viagens, incluindo as que estão por vir.

Dirigimo-nos para o táxi, para regressar a Kerman. O taxista, que não falava uma única palavra em inglês, tem a mala do carro aberta. Dentro tem quatro copos de chá. É possível amanhecer melhor que este?

Voltámos só para confirmar se o pôr-do-sol é igualmente mágico (como se houvesse alguma dúvida).

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Depois…

Voltei para casa. Trazia comigo um sorriso que se estendia por este corpo franzino de um metro e sessenta. Apressei o passo quando me apercebi das horas… os meus pais estão quase a levantar-se. Entre passos acelerados e piruetas de felicidade, cheguei a casa. Descalcei-me e, em bicos de pés, fui para o quarto e ali fiquei, a ouvir música. Desta vez a cama, essa, não dava aquelas voltas tontas. E, por minutos, daqueles que são eternos, o meu corpo e a minha alma uniram-se para, sem limites, dançar. De olhos fechados, sorria e cantarolava “When you go? Go far”.

O cheiro da cevada acabada de fazer e o barulho do pão a brincar com a torradeira invadem o quarto. Não resisti.
– Bom dia, mãe! Bom dia, pai! Dormiram bem?
– Bom dia, filho! Já estás acordado?, indagou a mãe.
– Acordei agora mesmo.
– Hmmm… Tens alguma fisgada! Conheço esse sorriso…
– Estou feliz! Apenas isso… Feliz! Pai, posso ir com o senhor António, para o campo, ajudar a passear as ovelhas?
– Vai, mas porta-te bem!
– Claro que sim!

Saí porta fora a correr.

Voltei atrás… Pus o chapéu que estava no bengaleiro, por detrás da porta da cozinha. Mãe, almoço no campo. Beijinhos
– Este rapaz! Espera… disse a mãe, sem sucesso.

A manhã continua bonita. O sol pinta os campos de ouro e os pássaros dão melodia a estes lugares de paz.

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Desta vez é a magnífica fotografia do Marco quem dá vida às minhas palavras, que dançam ao som de “Hemma”, o single que integrará o álbum “Antwerpen”, com lançamento previsto para outubro, da banda-de-uma-só-mulher, Surma.

Relembro que o Marco anda por aqui:

http://www.marcogil.pt/

http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/24012/lisboa-e-para-todos

e

https://www.facebook.com/MarcoGilFotografia/

E aqui, Surma:

http://omnichordrecords.com/pt/artistas-2/surma-15/

https://www.facebook.com/surmaee/

e

https://surma.bandcamp.com/

Quanto a mim, estou à janela… a ver o mundo!

Insónia

Eram cinco da manhã e a cama teimava em dar voltas. Decidi contrariá-la. Levantei-me de rompante, vesti-me, calcei umas sapatilhas e saí de casa, despenteado e com a cara por lavar. Precisava serenar das voltas que a cama insistentemente deu à minha alma. Ainda meio tonto, caminho sem destino.
Está frio. Ponho as mãos nos bolsos dos calções e encontro um dos auscultadores há muito perdidos. Sintonizo-me com a música que passa no momento.

Trauteio aquela letra quase impercetível mas, ainda assim, mágica. Começo a sorrir. Volto ao início da música e continuo a caminhar. Ao longe vejo uma luz que se repete de – um, dois, três, …, sete, oito, …, doze – doze em doze segundos. E o caminho ganhou destino. É ali, no farol, que vou ver o sol raiar. Tirei os auscultadores e a música que tocava, repetidamente, deu lugar ao som do mar.
Bom dia, dia bom!

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…é só escolher

Está frio. Está muito frio. Estamos no inverno. É natural que esteja frio. Hoje, abraço as 22 mantas cá de casa (sim, 22). O chá fumega. A música faz-se sentir uns quantos decibéis abaixo do habitual. Intercalo a leitura com a viagem… Ora leio, ora pouso o livro, fecho os olhos e… viajo. Retomo a leitura. Página 24, leio em voz alta. Estão a ouvir? Ouçam com atenção…

“No futuro
Iremos parar durante
Um minuto todos os dias,
Interromper o que estivermos a fazer, de repente, a meio
De uma palavra, de uma passada,
De uma garfada. E, perfeitamente imóveis, veremos que o mundo
É uma cruz para quem o carrega
E um berlinde para quem o empurra.
Depois é só escolher.”
Enciclopédia da Estória Universal, Recolha de Alexandria | Afonso Cruz

Viajo até aqui…
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… ao som de:

E agora pergunto: vamos jogar ao berlinde?

Dois-mil-e-dezassete

A janela esteve fechada. Já lá vão alguns dias. Tem estado frio; nem sempre apetece mas, quando dizem com sentimento “não te esqueças de abrir a janela”, mais do que uma vez, traz conforto ao coração. A janela abre-se…

“(…) E muitas vezes acabamos por compatibilizar os nossos desejos àquilo que prevemos que possa acontecer, àquilo que é mais plausível que aconteça; abdicamos de desejar o que efectivamente poderíamos desejar, porque o tememos inalcançável, para nos contentarmos em desejar aquilo que cremos realizável e exequível. É como se existisse uma espécie de central sindical reaccionária dentro de cada um de nós, a reivindicar não a evolução e o crescimento e a mudança mas a simples manutenção da situação; e sob a influência desta central sindical, passamos a viver numa espécie de patamar mínimo de desejo e felicidade, acantonados nos nossos direitos adquiridos; habituamo-nos a esse patamar mínimo, seguro e previsível, controlável; abdicamos de ambicionar e perseguir uma felicidade esplendorosa, inesperada e possivelmente aniquiladora (talvez avassaladora mas obviamente impossível de manter indefinidamente), para nos acomodarmos a uma amostra de felicidade mínima mas estável, uma espécie de serviços mínimos de felicidade, sem risco nem chama nem combustão. Procuramos paz e tranquilidade, quando talvez devêssemos ambicionar agitação e desassossego. Dizemos que vivemos cada dia como se fosse o último mas, na verdade, vivemos cada dia como se fosse o antepenúltimo. E habituamo-nos.
(…)
Sentindo a passagem dos segundos, contando-os um a um. E de repente apetece-me contá-los mesmo, murmurando os números em voz baixa e não apenas pensando-os mentalmente. Apetece-me contar mas não em contagem decrescente, como fizera antes; apetece-me começar do princípio, como se a vida estivesse a iniciar. Um-dois-três-quatros-cinco-seis-sete. Como se houvesse uma possibilidade de recomeço. Um novo nascimento. Doze-treze-catorze-quinze. Uma infinidade de segundos para preencher, para viver; alguns vazios, alguns banais, alguns dolorosos, alguns insuportáveis, alguns felizes; a felicidade possível, uma felicidade que momentaneamente até poderia ir além dos serviços mínimos. Vinte-e-um-vinte-e-dois-vinte-e-três-vinte-e-quatro. Quem sabe?”
Serviços Mínimos de Felicidade | Paulo Kellerman
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Música sem palavras…

Na voz de Eddie Vedder, “Arc”, o canto sagrado do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, mestre supremo da música qawwali (tipo de música religiosa tradicional originária da Índia islâmica; canto sagrado dos sufis).

Neste vídeo publicado no YouTube pode ler-se o seguinte comentário: “Music without words means leaving behind the mind. And leaving behind the mind is meditation. Meditation returns you to the source. And the source of all is sound.” | Kabir (“…grande poeta indiano do século XV. Iletrado, produziu uma obra poética que surpreende até hoje pela genialidade; crítico ferino da religião institucionalizada e acusado de heresia, foi reconhecido como santo pelo hinduísmo, o islamismo e o siquismo; irreverente até o limite da insolência, tornou-se um guia consumado do ioga e do sufismo.”

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