Lugares felizes

“Jaipur tem mais de 3 milhões de habitantes. Foi a Cidade Rosa que Chanda e Kami escolheram para viver. Ainda que rodeados por tanta gente é nos momentos de maior solidão acompanhada que se lembram de um passado ali tão perto, porque a dor quando é a sério demora a passar.
Volvidos 10 anos, não há um dia que não se lembrem daqueles dias maus, de quando o pai chegava a casa e batia na mãe só porque a bebida no bar tinha acabado.
A adolescência de Kami sempre foi moldada pela passado; é ansioso e acorda muitas vezes durante a noite, com o pensamento uma década atrás. Acorda sempre inquieto e depois tem dificuldade em voltar a adormecer. Mesmo assim, a vida foi refeita. Chanda trabalha numa loja de especiarias e Kami entrou há um mês na faculdade, a 3 horas de casa. O coração que sempre foi um, voltou a desunir-se e Kami vem ver a mãe a casa duas vezes por semana. Estuda psicologia, diz que quer ajudar as pessoas que passaram o mesmo que a mãe ou mesmo ele. Evitar que o mundo se destrone pelos laços familiares e fazer das famílias lugares felizes que possam durar para sempre. Que nunca ninguém tenha uma carruagem com 10 anos de atraso para apanhar. Que ninguém precise de fugir.
Hoje Kami regressa a casa, vem passar um mês de férias e a mãe aguarda ansiosamente por ele na estação, estão a minutos do mesmo abraço de sempre, mas mesmo assim Chanda não controla a emoção, porque é como se o abraçasse pela primeira vez ou às vezes pela última. Sete minutos depois Kami chegou, o sorriso de ambos uniu-se e depois os braços estenderam-se e o coração agregou-se um no outro, como sempre… ou para sempre.”
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As palavras que dão vida a esta imagem são do Marco Gil.

 

Deram as mãos…

“Deixaram tudo para trás… A começar pela vida.
Na Índia, o papel da mulher ainda não tem o valor que lhe merece e, foi também por isso que, Chanda sofreu de violência doméstica desde sempre. Demorou mais de meia década a voltar-se contra o medo que a fazia apenas sobreviver.
Foi pela manhã que decidiu fugir. Ele chegara novamente mal disposto e ela foi o bode expiatório de um problema que nem sequer conheceu. Kami tem apenas 9 anos e assistiu a tudo, como já acontecera por várias vezes e sempre com os olhos humedecidos de raiva. Mas sem nunca confrontar o pai, na melhor das hipóteses de assim o poder chamar. Esta manhã seria o abismo de uma vida já no cume há demasiado tempo.
Chanda aproveitou a ida do marido ao bar e começou a preparar duas malas de roupa, nas quais meteu a bomba de asma de Kami e pouco mais que o indispensável.
Saíram ao meio dia. Faltavam apenas quinze minutos para começar a viver.
Quando subiram o primeiro degrau do comboio, que os levava do inferno para fora, suspiraram de alívio e, aos poucos, Kami chorava entre soluços e lágrimas que lhe corriam fortemente do rosto. Creio que eram de felicidade, mas podia ser o peito a abrir-se para a esperança.
O comboio partiu e não olharam uma única vez trás. Deram as mãos e com as outras duas agarram-se com a certeza de quem parte para sempre. De um futuro que começa a dois, sem medo, violência, angústia e com a esperança de que um dia voltem a encontrar a felicidade…traçada por trilhos e carruagens sem fim, mas com um fim.
Hoje voltaram a sorrir e ainda que o coração padeça de cicatrizes, todos os dias voltam a acordar felizes e dispostos de as sarar para sempre.”
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A ideia partiu de uma ‘brincadeira’ – dar vida a uma foto que tirei numa viagem de comboio, em Bombaim. O Marco fê-lo melhor que ninguém. O grande Marco Gil. As palavras saem-lhe do coração e da alma. Gosto muito do modo intenso como escreve, mas confesso que este texto superou as minhas expectativas. Aliás, este texto superou-me. Estremeci, sentindo cada palavra.
Deixem-me ainda dizer que o Marco, além de escrever assim, fotografa ainda melhor. Para quem o quiser conhecer (se não quiserem, não sabem o que perdem!), ele anda por aqui:

http://www.marcogil.pt/

http://p3.publico.pt/category/free-tags/marco-gil

e

https://www.facebook.com/MarcoGilFotografia/

 

Música sem palavras…

Na voz de Eddie Vedder, “Arc”, o canto sagrado do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, mestre supremo da música qawwali (tipo de música religiosa tradicional originária da Índia islâmica; canto sagrado dos sufis).

Neste vídeo publicado no YouTube pode ler-se o seguinte comentário: “Music without words means leaving behind the mind. And leaving behind the mind is meditation. Meditation returns you to the source. And the source of all is sound.” | Kabir (“…grande poeta indiano do século XV. Iletrado, produziu uma obra poética que surpreende até hoje pela genialidade; crítico ferino da religião institucionalizada e acusado de heresia, foi reconhecido como santo pelo hinduísmo, o islamismo e o siquismo; irreverente até o limite da insolência, tornou-se um guia consumado do ioga e do sufismo.”

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A maior lavandaria do mundo

Milhares de peças de roupa e centenas de tanques de água dão forma e cor a um labirinto. Estamos em Bombaim, mais concretamente em Mahalaxmi Dhobi Ghat, um bairro-lavandaria, conhecido como sendo a maior lavandaria a céu aberto do mundo.
Os dhobis – como são conhecidos os homens que aqui trabalham – começam a sua jornada às três da manhã. Aqui o recurso à maquinaria é praticamente inexistente. As roupas são lavadas, enxaguadas, amaciadas e até mesmo centrifugadas pelas experientes mãos destes homens.
A eficiência do serviço destaca-se de forma que os hotéis e os hospitais enviam as suas roupas  para aqui.
A organização é de tal maneira surpreendente que raramente ocorrem erros. As roupas recebem um código que é assinalado numa etiqueta, indicando o bairro e a rua do cliente. Apenas os dhobis conseguem descodificar a marcação.

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Água sagrada

“Porque à Índia não se chega, meu caro, na Índia caminha-se. (…)

O rio Ganges é a mais importante biblioteca da cidade e o mais importante arquivo.
Não há verdade fora do rio, nem há mentira de qualidade, ficção ou mitologia, exterior às suas águas sujas. Mas as águas não são sujas, realmente tal expressão é um erro – corrige Anish. São águas complexas, o que é diferente.
Aqui a água não é um elemento de visita ao mundo dos homens, são os homens que estão de visita à água – e na Índia toda a gente o sabe.

(…) O que não é atraído pela água não é importante. A água é sagrada. Depois de mergulharem no rio as pessoas cantam mais, há quem saia da água com uma voz milagrosa e não há dançarina que na véspera de actuar não vá copiar do rio certos movimentos. É o único país onde a água embebeda mais que o vinho e seduz tanto como as mulheres jovens.”

Uma Viagem à Índia (canto VII) | Gonçalo M. Tavares

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