Libelinhas

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“Viver é esperar.”

Libelinhas | Encenação de Pedro Oliveira para O Nariz
Texto de Paulo Kellerman

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Sanidade

“Quando chego a casa, encontro-a dentro da banheira; mas a banheira está vazia e ela completamente vestida. Esta visão é surpreendente e perturba-me um pouco; contudo, a expressão do seu rosto é serena e tranquila, apaziguada. Sorrio, tento não me alarmar nem reagir precipitadamente, tento não denunciar que estou assustado; mas sou incapaz de me aproximar dela e acariciar-lhe o cabelo (o que teria feito, em circunstâncias normais, se ela estivesse nua e a banheira cheia de água fumegante). Respiro fundo e, esquecendo-me de continuar a sorrir, pergunto o que se passa.
– Nada de especial, acho eu. Estava apenas a pensar como a vida avança em ciclos; não é? Os dias que se sucedem, e depois as semanas, os meses, os anos; tudo ordenado e previsível. Como se vivêssemos permanentemente no interior de uma rotunda, sempre às voltas; porque tudo é circular, tudo se repete. E como podemos inverter isto? Como quebrar a linearidade do tempo, como desafiar o destino, como enganar o futuro e torná-lo mesmo inesperado? Já alguma vez pensaste nisso?
Não. Nunca pensei na linearidade do tempo.
– Eu penso nisso, por vezes. Afinal, o que tem o futuro de verdadeiramente imprevisível? Que efectivo grau de surpresa nos reserva o futuro? A sério que não pensas nisso?
A sério.
– Mesmo que os eventos nos surpreendam, nós somos sempre nós; somos uma espécie de constante que vai evoluindo mas sem efectivamente mudar, na essência. E seremos sempre incapazes de nos surpreender a nós próprios, é esse o problema; é isso que nos perturba e irrita, que nos deprime: nunca teremos surpresas genuínas porque o futuro que está para vir será uma mera repetição de algo que já aconteceu, algo que já nos aconteceu.
E cala-se, como se não houvesse nada mais para dizer.
– Só podemos dar e receber o primeiro beijo uma vez; só uma vez, e acabou. Todos os restantes beijos da nossa vida serão repetições do primeiro; percebes? E até poderão ser repetições melhores mas não deixarão de ser repetições. É um bocado assustador, não é?
Encolho os ombros; mas ela não me está a olhar.
– Portanto, apenas nos resta tentar desafiar o futuro, forçá-lo a surpreender-nos. E é nisto que tenho pensando, em formas de contornar a previsibilidade do que ainda há-de vir.
Sorri. Como se, afinal, tudo estivesse normal. Como se fosse uma manhã de sábado repleta de sol e a banheira estivesse a transbordar de água, a casa de banho cheia de vapor e de um cheiro inebriante a champô de coco, e estivéssemos a falar daquele programa de culinária que tínhamos visto no outro dia; tudo normal.
– Sabes de que me lembrei? Que poderia tentar inverter as coisas: recusar-me a ficar à espera que o futuro me surpreenda mas surpreender, eu própria, o futuro. Fazer algo improvável e inesperado, inexplicável (talvez aquilo que muitos chamam loucura, percebes?), algo que perturbe o natural fluir dos acontecimentos, enganando e baralhando o futuro. Achas que o futuro pode ser baralhado? Eu acho que sim, que podemos tentar inverter a normalidade, podemos tentar suspender a metódica e circular marcha do tempo. Ou, pelo menos, brincar com o tempo, provocando-o um pouco; provocar-lhe soluços.
Poderia dizer-lhe que se estava a contradizer, ao desejar que tudo fosse diferente quando acabara de afirmar que nunca existirá genuína surpresa na vida de alguém; mas talvez seja a contradição que nos desafie e faça avançar, talvez a harmonia apenas conduza ao conformismo e à letargia, à resignação.
– Há pessoas que pensam que a vida é como um jogo de xadrez; e depois decoram jogadas inteiras, planeiam tudo, antecipam tudo, imaginam que controlam tudo; esquecendo que quem joga com elas também tem as suas próprias estratégias, esquecendo que o destino tem as suas próprias estratégias. Diz-me, o que será preferível: jogar por instinto ou jogar planeado? Quanto a ti, não sei. Mas eu estou um bocado cansada de jogar planeado, de seguir as regras, de repetir. Estou mesmo. E estava aqui a imaginar o que pensará o destino quando me vir assim, vestida e sorridente numa banheira vazia. Achas que ficará baralhado? Tu ficaste.
E sorri, uma vez mais. Não sei o que pensar, o que sentir; não sei se ela terá ficado momentaneamente louca ou se está simplesmente certa. Permanecemos em silêncio, escutando apenas o distante rumor do universo (aquele rumor que, no fundo, mais não é do que um indisfarçável bocejo). Mas reparo que estou a sorrir, que por algum motivo desconhecido começara a sorrir; e é a sorrir que pergunto: deixas-me entrar, posso juntar-me a ti?
E depois, beijo-a. Como se fosse a primeira vez.”
Loucura | Paulo Kellerman

Um conto e  31 imagens

O momento

“Porque estás aqui?
Qual a importância deste momento?
Já reparaste como a vida avança em ciclos?
Dias que se sucedem. E depois semanas, meses, anos.
É como se vivesses no interior de uma rotunda, sempre às voltas.
Porque, no fundo, tudo é circular. Tudo se repete.
E os momentos vão-se dissolvendo uns nos outros, misturando-se.

Como enganar o futuro e torná-lo inesperado?
Como sair da rotunda?
Afinal, o futuro tem pouco de verdadeiramente imprevisível.
Mesmo que os acontecimentos te surpreendam, tu és sempre tu.
A forma como vês e ouves é sempre a mesma.
Apenas tens dois olhos. Dois ouvidos.
És uma constante que vai evoluindo mas sem efectivamente mudar na essência.
És uma repetição.

És incapaz de te surpreender a ti próprio e isso perturba-te, irrita-te.
E desejas desafiar o futuro a surpreender-te.
Nunca tentaste fazer algo inesperado, algo que baralhe o futuro?
Tentar inverter a normalidade, tentar suspender a marcha do tempo.
Fazer com que cada momento conte por si.
Não é por isso que estás aqui?
Para contornar a previsibilidade, desafiar a rotina, procurar a surpresa?

É verdade que os dias se sucedem, e depois as semanas, os meses, os anos.
Mas o que conta é cada um dos momentos que compõem esses dias.
O que conta é o presente.
O que conta é estar aqui e agora.
Porque o aqui está repleto de possibilidades, de oportunidades, de desafios.
E talvez assim possas surpreender o futuro: não pensando nele.
Não olhando para o presente como se olha pela janela: sempre à espera de algo.

Porque estás aqui?
Por causa do momento.
Porque é aqui que está o teu presente. Em cada momento.
Sincroniza-te com ele.
Sim, tal como sincronizas as músicas no telemóvel.
O resto… O resto é passado, é silêncio, é esquecimento.
Que se dane o resto.
Porque estás aqui?
Porque sentes o chamamento do presente.”

Chamamento | Paulo Kellerman

– «Sair da rotunda», diz  a vida. A voz dela é bem mais bonita do que a daquela senhora que está dentro do GPS. Conquistada pela doce melodia desta indicação que, muitas  vezes, vem acompanhada de bonitos desafios, resta-me segui-la e sair. Acompanhas-me?

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Dois-mil-e-dezassete

A janela esteve fechada. Já lá vão alguns dias. Tem estado frio; nem sempre apetece mas, quando dizem com sentimento “não te esqueças de abrir a janela”, mais do que uma vez, traz conforto ao coração. A janela abre-se…

“(…) E muitas vezes acabamos por compatibilizar os nossos desejos àquilo que prevemos que possa acontecer, àquilo que é mais plausível que aconteça; abdicamos de desejar o que efectivamente poderíamos desejar, porque o tememos inalcançável, para nos contentarmos em desejar aquilo que cremos realizável e exequível. É como se existisse uma espécie de central sindical reaccionária dentro de cada um de nós, a reivindicar não a evolução e o crescimento e a mudança mas a simples manutenção da situação; e sob a influência desta central sindical, passamos a viver numa espécie de patamar mínimo de desejo e felicidade, acantonados nos nossos direitos adquiridos; habituamo-nos a esse patamar mínimo, seguro e previsível, controlável; abdicamos de ambicionar e perseguir uma felicidade esplendorosa, inesperada e possivelmente aniquiladora (talvez avassaladora mas obviamente impossível de manter indefinidamente), para nos acomodarmos a uma amostra de felicidade mínima mas estável, uma espécie de serviços mínimos de felicidade, sem risco nem chama nem combustão. Procuramos paz e tranquilidade, quando talvez devêssemos ambicionar agitação e desassossego. Dizemos que vivemos cada dia como se fosse o último mas, na verdade, vivemos cada dia como se fosse o antepenúltimo. E habituamo-nos.
(…)
Sentindo a passagem dos segundos, contando-os um a um. E de repente apetece-me contá-los mesmo, murmurando os números em voz baixa e não apenas pensando-os mentalmente. Apetece-me contar mas não em contagem decrescente, como fizera antes; apetece-me começar do princípio, como se a vida estivesse a iniciar. Um-dois-três-quatros-cinco-seis-sete. Como se houvesse uma possibilidade de recomeço. Um novo nascimento. Doze-treze-catorze-quinze. Uma infinidade de segundos para preencher, para viver; alguns vazios, alguns banais, alguns dolorosos, alguns insuportáveis, alguns felizes; a felicidade possível, uma felicidade que momentaneamente até poderia ir além dos serviços mínimos. Vinte-e-um-vinte-e-dois-vinte-e-três-vinte-e-quatro. Quem sabe?”
Serviços Mínimos de Felicidade | Paulo Kellerman
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fotografar palavras

fotografar palavras é um blogue que reúne na mesma “mesa” amigos de palavras e de imagens. O anfitrião-mor é Paulo Kellerman. O abraço é a sua grande arma de arremesso. Está sempre presente nas suas palavras e em nós, colaboradores. Resta-nos gratidão e honra por aqui andar.

A “mesa”: http://fotografarpalavras.blogspot.pt/

Aqui, sentimos liberdade de convidar quem quisermos. É aberto ao mundo… Só por isso vale a pena aqui andar.

Aqui, as palavras e as imagens entram em fusão  (algumas, em ebulição) e transformam-se numa união singular. Transformam-se no modo como cada indivíduo vê o mundo.

Aqui, viaja-se no mundo encantado (de cada um).

A colaboração na publicação de hoje é-me demasiado especial. Esta fotografia foi tirada em agosto de 2015, cerca de 3 meses e meio após o sismo que abalou o Vale de Kathamandu.  Quando um sorriso se estende e reflete no olhar só pode ser um sorriso de fé. A fé, a que nos ilumina…

Bem haja, Paulo!

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“O sorriso pode ser um acto de fé.”

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Mónia Camacho
Foto: Teresa Afonso