Música para a alma…

… fluir e dançar.

Somehow
Somehow
The tide
Pushing me up
It seems so long
And I will flow with it
And I will flow with it

New dawn’s coming
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Inspirações

Em 1977, uma jovem australiana, com 27 anos, partiu de Alice Springs para atravessar um deserto inóspito até o Oceano Índico, perfazendo uma caminhada de 2700 km. Os seus companheiros de viagem: um cão e 4 camelos. Apesar do desejo de auto-suficiência, Robyn Davidson (The Camel Lady) aceita o financiamento da National Geographic em troca de um artigo para a revista. Para registar momentos dessa aventura foi ainda acompanhada por Rick Smolan, um fotógrafo da referida revista. O sucesso do artigo foi de tal ordem que Robyn Davidson acaba por escrever um livro – “Tracks: A Woman’s Solo Trek Across 1700 Miles of Australian Outback “. O fotógrafo segue as pisadas e publica “From Alice to Ocean”.
Diz-se que esta aventura inspirou Bruce Chatwin a viajar até à Austrália e escrever “The Songlines”.

“O impossível está ao alcance de todos nós.”

A todos aqueles que sonham viajar

A Carla e o Rui, do Viajar entre Viagens, decidiram dar voz a pessoas anónimas que têm uma paixão comum: viajar. O testemunho passava por escrever um pequeno texto  que transmitisse  o modo como surgiu este  gosto que, a par com o coração, é responsável pelo bombear do sangue que corre dentro de nós. Pretendia-se ainda que, de algum modo, as breves palavras por nós escritas servissem de inspiração a todos. O meu entusiasmo foi tal que a dada altura o pequeno texto tinha-se transformado em sete páginas. (Sim, sete páginas!!)

Vou aqui partilhar o resultado final desta rubrica – 14 testemunhos, mas quero primeiro falar-vos do verão de 1985 e de como “tudo” começou…

Partimos do norte litoral, num Fiat 127 bege, rumo a Lisboa. Era Agosto. A mala carregava, entre muitas coisas, uma panela de arroz embrulhada em jornal, para manter-se quente, e os panados (os melhores do mundo) para as refeições daquele que seria o primeiro dia de viagem. Fomos fazendo algumas paragens: Coimbra, Conímbriga, Batalha, Fátima, Tomar, Castelo de Bode, grutas de Mira de Aire, Nazaré, São Martinho do Porto,…  Foi em Tomar, do alto da sabedoria dos meus 9 anos que disse: não me importava de viver aqui. Quis o destino (e o concurso do Ministério da Educação) que, em 2013, viesse viver a escassos quilómetros de Tomar.

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Portugal dos Pequenitos, Coimbra

Até 1999 os meus horizontes estavam restringidos a Portugal e à vizinha Galiza. Os tempos eram difíceis e a prioridade dos meus pais foi dar aos filhos as ferramentas para serem livres. Por isso (e muito mais) sou-lhes infinitamente grata. Foi então que, em 1999, primeiro ano de serviço, comecei a dar uso às ferramentas. Dei o meu primeiro salto. Foi um salto reduzido no que se refere a distância geográfica, mas foi um salto demasiado grande no meu interior. Fui a Madrid. E se já nutria simpatia pelos nuestros hermanos, não tivesse eu uma quase costela galega, vim de lá encantada. Devorei, com toda a inocência que se carrega na primeira “grande” viagem, o Prado, o Reina Sofia e o Thyssen-Bornemisza, o Palácio Real, a Praça Cibeles, …,  a estação da Atocha, mas confesso que foi o calcorrear pelas ruas, andar nos transportes públicos imiscuída a ouvir castelhano uns decibéis acima do habitual e entrar no parque do Retiro, um pequeno pulmão da capital espanhola, o que mais me seduziu.

Em 2001 deixo Portugal Continental e mudo-me para uma das nove pérolas atlânticas – Pico, a Ilha Montanha. Esta mudança, prevista inicialmente por três anos, acabou por se prolongar por mais nove, dos quais seis foram em São Miguel. Como em tudo, há vantagens e desvantagens. Estava longe de tudo e de todos. Eram pouco mais de duas horas de voo, no entanto, relembro que as companhias low cost entraram no espaço aéreo açoriano há pouco tempo. Até então as passagens tinham preços pouco aliciantes. Recordo que cheguei a pagar a módica quantia de trezentos euros para passar o Natal em família, sendo a simpática tarifa para residentes. Esta exorbitância obrigou-me a reduzir a chama deste gosto pelas viagens. Entretanto, aproveitando o facto de viver num paraíso no que diz respeito a natureza, percorri as nove ilhas. Tenho dificuldade em escolher a mais bonita. Sem qualquer ordem, São Miguel, São Jorge, Pico e Flores são, sem dúvida, as favoritas.

As memórias continuam ao longo de mais cinco páginas. Por agora, deixo-vos com o breve contributo, assim como o de mais 13 inspiradores viajantes.

Viajar está ao alcance de todos (os testemunhos dos nossos seguidores)

… que os sonhos se tornem realidade.

 

Números e letras

Na escola primária a Matemática era simples. Era só números. Com o passar dos anos começaram a misturar letras, como se fosse uma sopa. Entre cada colherada procurava afastar os números das letras; resolvia uma equação. O simples converteu-se em fascínio. Na universidade os quadros de ardósia transformavam-se em quadrípticos esculpidos com giz, decorados unicamente com letras. O fascínio, por vezes, deu lugar ao desespero, mas este saiu vencido. Hoje em dia (e no dia-a-dia) a Matemática continua a fascinar-me. É desafiante quando aquelas expressões com radicais carregados de regras e potências de expoente racional com aparência feia (muito feia!) são afinal iguais a um número natural. A mente e a persistência conferem a beleza que a Matemática carrega. Digam lá que não é bonita?!

“Os números primos apenas são divisíveis por 1 e pelo próprio número. Estão no lugar que lhes é próprio na infinita série dos números naturais, esmagados como todos entre dois, mas um passo mais além relativamente aos outros. São números desconfiados e solitários e, por isso, Mattia achava-os maravilhosos. Por vezes achava que tinham ido parar por engano àquela sequência, ficaram lá aprisionados como pequeninas pérolas num colar. Outras vezes, ao invés, desconfiava que também eles gostassem de ser como os demais, apenas uns números quaisquer, mas que por algum motivo não haviam sido capazes. O segundo pensamento surgia-lhe sobretudo à noite, no emaranhado caótico de imagens que antecede o sono, quando a mente está demasiado débil para mentir a si mesma. Numa cadeira do primeiro ano Mattia estudara que entre os números primos há alguns que ainda são mais especiais. Os matemáticos chamam-lhes primos gémeos: são pares de números primos que estão próximos um do outro, aliás, quase próximos, pois entre eles existe sempre um número par que os impede de se tocarem realmente. Números como, por exemplo, 11 e 13, 17 e 19, 41 e 43. Tendo paciência para continuar a contá-los descobre-se que estes pares se vão tornando progressivamente mais raros. Descobrem-se números primos cada vez mais isolados, perdidos naquele espaço silencioso e cadenciado feito apenas de cifras e nota-se o pressentimento angustiante de que os pares encontrados até aí foram um facto acidental, cujo verdadeiro destino é o de ficarem sozinhos. Depois, quando se está prestes a desistir, quando já não se tem vontade de contar mais, eis que se descobrem, abraçados, mais dois gémeos. Entre os matemáticos é convicção comum que por mais que se avance na contagem, existirão sempre mais dois, ainda que ninguém saiba dizer onde, até serem descobertos.”
A Solidão dos Números Primos | Paolo Giodarno

Ultreia et Suseia

Estão 42 graus Celsius. A sensação térmica, essa, será certamente o dobro. Acabo de cruzar-me com dois casais de bicigrinos e dois peregrinos sozinhos  (sozinhos?! Hã… Que mentira tão grande esta que acabei de escrever!!), de mochila às costas e com uma vieira pendurada.

Acredito que muitas pessoas passam por estes peregrinos e questionam a ‘loucura’ que os impulsiona a percorrer 22, 32 ou 42 km/dia sob estas temperaturas. Eu passo por eles e fico sempre emocionada. Percebo-os tão bem. Revejo-me e quero estar ali, ao lado deles. E estou.

Viajo no tempo e volto aos (meus) Caminhos… Recordo que, por alguns dias, os meus tornozelos ficaram disfarçados pelo inchaço dos pés e das pernas no final de cada etapa mas, para revitalizar, nada como um bom banho, descanso e confraternizar com aqueles que serão a nossa equipa dos próximos dias. No fim do dia é o momento de interiorizar a jornada e sentir-me grata. Amanhã há mais e há um lindo nascer do sol à minha espera.

Um dia, depois de dizer uns quantos raios e coriscos pelo calor que se fazia sentir, sentei-me e ao meu lado estava um peregrino polaco.
E vai daí ele lança a questão: “O que te traz ao Caminho?”;
A resposta dele: “reencontrar-me”.
Tinha iniciado o seu percurso em Saint Jean Pied de Port, a primeira etapa do Caminho Francês. Previa um mês para este seu reencontro.

O Caminho de Santiago vai muito além da ideia redutora que se trata apenas de uns quantos dias a caminhar, numa sede insaciável de carimbos e umas quantas cañas no final da jornada. Devia ser de cariz obrigatório, uma vez na vida (seja ela qual for), cada pessoa fazer um destes caminhos. Não têm idade e não têm religião. A única limitação está na nossa cabeça. Acreditem!

Hoje, dia 25 de julho é o Dia de Santiago.

Segundo a lenda, foi a aparição dos restos do Apóstolo Santiago que originou a criação da capital galega. Santiago de Compostela converteu-se rapidamente em cidade santa, juntamente com Jerusalém e Roma, e em centro de peregrinações, dando lugar ao Caminho de Santiago (Património da Humanidade).

Há um excerto do livro “O Segredo de Compostela“, de Alberto S. Santos, que diz:

“O mestre explicara-lhe que desde tempos imemoriais, havia gente de sítios distantes, nomeadamente das Gálias, mesmo antes de aquelas terras pertencerem a Roma, que seguia o caminho das estrelas, orientada pela Via Láctea, em direcção ao mar da finis terrae, perto da villa onde viviam.
– Mas o que vêm fazer, ao certo, a este lugar?
– Nós vivemos num lugar mágico, o último reduto da Terra. É o lugar onde o Sol se põe todos os dias para, no seguinte, voltar a nascer. Assim, os homens que querem fazer uma viagem interior, para crescerem espiritualmente como homens novos, seguem o caminho das estrelas e vêm render homenagem ao sol, para renascerem com ele na manhã seguinte.
-Não entendo muito bem o que dizes…
-Um dia, perceberás estes homens especiais, os peregrinos da Via Láctea. Os que viajam em busca da redenção interior, através de um caminho de perfeição.
– E porque seguem a Via Láctea?
– Porque simboliza o caminho das almas para o outro mundo. Numa noite de luz, repara como ela se orienta do lugar de onde o sol nasce para este lugar, onde se põe…- respondeu o Lívio, passeando o olhar através da abóbada celeste.
-Não deve ser muito fácil esse caminho…Normalmente, parecem pedintes e malcheirosos.
-É evidente! Os caminhos de perfeição são compostos por muitos escolhos… – Vêm com o único propósito de…se encontrarem a si próprios. Esse é o fim de qualquer peregrinação.”

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A música fica a cargo do ícone da música tradicional galega, Carlos Nuñez.

 

Bons motivos para aprender islandês

A música que se segue é a primeira do mais recente projeto, “Island Songs“, de Ólafur Arnalds. Esta viagem musical pela terra do fogo e do gelo teve início a 27 de junho e percorrerá 7 locais durante 7 semanas.
Einar Georg, um poeta islandês da aldeia Hvammstangi dá voz a Árbakkin. Através de sua prosa homenageia os sons que emanam dos rios. O piano de Ólafur Arnalds e um quarteto de cordas vêm sublimar cada palavra.

Sobre a não tradução deste poema, o músico islandês escreveu no twitter: “any translation by me or my team could never do his beautiful words justice.. so we decided against it…”

O poder da música é…

São curvas as retas

Já lá vão 6 anos…

Em gesto de homenagem, assinalando o primeiro ano da morte de José Saramago, o Final Cut apresentou A Maior Flor do Mundo, uma animação galega de Juan Pablo Etcheverry, de 2007, a partir do livro infantil do escritor. O filme é narrado pelo próprio Saramago.

“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos?
Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?”

Claraboia“, romance escrito por José Saramago em 1953, mas publicado postumamente em 2011, tem início com a seguinte citação de Raul Brandão:

“Em todas as almas, como em todas as casas, além da fachada, há um interior escondido.”
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José e Pilar” um documentário onde o realizador, Miguel Gonçalves Mendes, mostra o José que havia em Saramago, a sua vida, as suas viagens, a sua relação de amor com Pilar del Río, sua companheira até ao fim da vida. Filmado entre 2006 e 2009, com a criação do romance “A Viagem do Elefante” como pano de fundo, mostra o quotidiano de um dos mais importantes escritores contemporâneos, na sua relação com Pilar, o público e a vida.