Distâncias infinitas

“Expliquei à professora que na sala de aula tudo era perto e que nada se distanciava de nada como nos montes da paisagem. Mas a professora negou. Disse-me que o rosto de cada um também era imenso como a paisagem e, visto com atenção, tinha distâncias até infinitas que importava percorrer.
Nesse dia, voltei da escola como se tivesse a tampa da cabeça aberta e os pensamentos me fugissem para o vento.
(…)
Percebi que para dentro de nós há um longo caminho e muita distância. Não somos nada feitos do mais imediato que se vê à superfície. Somos feitos daquilo que chega à alma, e a alma tem um tamanho muito diferente do corpo. (…) O rosto começa onde se vê e vai até onde já não há luz nem som. (…) Entendi que o rosto é extenso e infinito, capaz de expressões que vamos conhecendo e outras que nunca vemos. Toda a vida precisamos estar atentos, senão vamos perder muito do mais importante que acontece em nosso redor. Como se houvesse um incêndio mesmo diante de nós e nem sequer o percebêssemos antes de estar tudo completamente queimado.
O Rosto | Valter Hugo Mãe

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Um infinito de cor azul

Gosto de viajar. Gosto da capacidade que me transporta de um ponto a outro, muitas vezes, sem me deslocar. Arrisco mesmo dizer que viajo 365 dias no ano (caso seja ano bissexto, folgo um dia) e não me parece uma hipérbole. Gosto de viagens conduzidas por uma música, uma frase, um rosto, uma imagem, …

Hoje, dou por mim à porta de uma casa nos fiordes do leste islandês. À janela, um senhor que cruzou o seu olhar com o meu, apenas uma única vez. No olhar carregava nostalgia e resistência, que se desvaneciam por entre os vidros de uma janela com vista para um infinito de cor azul. Naquele momento, gostaria que a pequena A. estivesse comigo. Ela disse: “um dia vou pôr açúcar no mar, para ficar doce”. A. vamos adoçar o mar deste senhor?

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Nunca estaremos sós

Viajo no tempo e retrocedo a julho de 2014. Estou em Genebra, sentada no chão, a admirar este senhor a jogar xadrez, com peças do tamanho da sua fragilidade.

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À memoria vem ainda um excerto de “O Filho de Mil Homens“, de Valter Hugo Mãe.

“(…) todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.”

Nesta obra, Valter Hugo Mãe relata uma experiência de amor pela humanidade, explicando como, afinal, o sonho muda a vida.