Vamos fazer magia?

“Cubos

Husserl usava um cubo para explicar aos seus alunos o conceito de transcendência na imanência. Imaginemos um cubo pendurado à nossa frente. Ao observá-lo de um ponto fixo nunca vemos mais do que três faces, ou seja, não podemos ver as coisas de uma forma total. Tudo o que existe é formado por partes visíveis e invisíveis, neste caso específico, num máximo de três faces observáveis para cada ângulo, e as outras três ocultas, perfazendo um total de seis. Assim, a presença de algo pressupõe uma ausência e todas as coisas são construídas precisamente por estes dois factores. A transcendência não seria então domínio da metafísica, mas apenas parte material que está ausente à nossa sensibilidade, faria parte das coisas, ser-lhe-ia imanente.
Apesar da limitação de não conseguirmos ver uma parte da «realidade», se tivermos outro observador, de um ângulo oposto ao nosso, temos a «verdade», o cubo com seis lados (desde que os dois observadores comuniquem entre si). Também é possível ver a totalidade do mesmo poliedro se viajarmos para o outro lado. Para termos essa noção total de um cubo precisamos de uma de duas coisas: ou do outro ou de viajar. O que muitas vezes são a mesma coisa, pois a viagem implica a alteridade, implica muitas vezes ser o outro. (…)


Alea jacta est

Se estivermos imóveis, só conseguimos  ver um máximo de três lados de um cubo, mas um jogador, ao olhar para um dado, «vê» apenas a face que ficou virada para cima. E esta é muitas vezes a nossa maneira de olhar o mundo: para a face das nossas expectativas, medos, simpatias e preconceitos, ignorando as outras visíveis (mais duas no máximo) e as invisíveis (pelo menos três).
Nos casinos, as pessoas atiram os dados com força quando querem números altos e com delicadeza quando precisam de números baixos. A magia está sempre presente na nossa vida. Sentimos, sabendo por vezes que é apenas uma ilusão, que podemos controlar o mundo, dissipar o mistério, perceber o destino, domesticar o que é invisível e influenciar o século. Ou dados.
(…)
Enquanto o dado gira, o mundo é feito de probabilidades e é difícil obliterar o sentimento de magia que se apodera de nós, de que podemos com os nossos desejos alterar a realidade. Esse sentimento é um vestígio residual da infância, mas tem sido também através desse sentimento, desse resquício de quando éramos de facto grandes magos, do tempo em que acreditávamos em coisas que as pessoas adultas e sérias e importantes consideram absurdo ou infantil ou aventureiro, que temos conseguido mudar a sociedade. Porque apesar de tudo, por vezes ainda se faz magia.”

Jalan Jalan | Afonso Cruz

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Harpa | Reykjavik
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Música, música,… sempre música!

Foi no dia 1 de outubro de 1975 que o International Music Council –  instituição fundada em 1949, pela UNESCO, que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música – instituiu o Dia Mundial da Música. “Promover a arte musical em todos os sectores da sociedade, divulgar a diversidade musical e aplicação dos ideais da UNESCO como a paz e amizade entre as pessoas, a evolução das culturas e a troca de experiências”, são alguns dos objetivos que estão na origem da criação deste dia.

“A música tem um enorme poder transformador, quase imediato. É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar catarse ou êxtase.” 
Nem Todas As Baleias Voam | Afonso Cruz

Danças?

“(…) vivemos numa tapeçaria e que, por mais longe que estejamos uns dos outros, somos a mesma história, fazemos parte do mesmo tapete, a morte de uns é o nascimento de outros, a face da nossa vitória é a derrocada de alguém. (…) a nossa história nunca é só a nossa história, é uma vastidão tão grande que custa mapear. Faremos os possíveis. Resistiremos à pequenez a que nos prendem, ao nome que somos, ao corpo ridículo que temos, resistiremos à Conservatória, ao estado larvar a que fomos condenados, porque somos muito mais compridos do que isso, muito mais antigos, muito mais vastos. Temos asas coloridas de borboletas dentro de casulos pútridos e cinzentos que chamamos realidade objectiva ou identidade ou individualidade.”

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“Pousei a cédula do senhor Ulme na prateleira e disse:
– Já sabemos em que ano nasceu.
– Eu sei que ano nasci, cavalheiro. Não precisava de consultar a minha cédula.
– Muito bem. E agora?
– Agora, o quê?
– Próximo passo.
– O cavalheiro sabe dançar?
(…)
– Eu não consigo dançar, acho que não nasci com os genes necessários.
– Genes?
– Que se lixem os genes. Nem sequer se vêem a olho nu. São uma desculpa ridícula, uma desculpa que nem se vê a olho nu.
– A verdade é que nem sei por onde começar.
– Solte as ancas, cavalheiro, que o próximo passo virá naturalmente.(…)”
Flores | Afonso Cruz

Minúsculo vs Infinto

De como um rectângulo pode ser infinito dentro dos seus limites; de como o Homem pode ter as mesmas características

    Leon Battista Alberti dizia que, antes de começar a pintar o artista deve desenhar um rectângulo e que esse rectângulo é a janela para a cena que se quer retratar. Este é o milagre da perspectiva: a lonjura faz as coisas pequenas, faz um milagre. Diz-se que o recipiente é maior, é sempre maior do que o conteúdo, e que o contrário não se pode verificar. É falso, como comprova a minha janela pequenina. Nela cabe uma paisagem gigantesca. É o milagre da perspectiva. Mas daqui devem concluir-se mais coisas, a saber:
     Coisa número um: num homem pequeno, minúsculo, pode assim caber algo muito maior do que ele. Dentro do homem cabem mares e paisagens, o infinito e o próprio Deus do Universo, o meu gato que já morreu e de que sinto uma tremenda falta.
     Coisa número dois: o Homem é uma janela pequenina. E com isto diz-se tudo o que há para dizer sobre o Homem. Diz-se que é minúsculo e diz-se que é infinito.
Mil Anos de Esquecimento | Afonso Cruz

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Harpa | Reykjavik |Islândia

Vida apaixonada

Há dias que, quando menos esperamos, somos abençoados. Atingimos um estado de leveza tal que se uma brisa se cruzasse connosco levar-nos-ia a todos os sítios onde fomos/somos verdadeiramente felizes.
No caminho cruzo-me com um peregrino. Sinto profunda admiração por quem embarca nestas viagens interiores. O brilho no olhar e o sorriso são a minha saudação a este grande “viajante”, sussurrando: ultreia.
A melhor descrição que, até ao momento, ouvi para explicar a dimensão da palavra ultreia foi da boca de Afonso Cruz. Julgo que já aqui o referi uma vez, mas há palavras que nunca me canso de ouvir/ler. Aqui está: “Ultreia que significa um passo mais além. É dar um passo além.(…) Quando temos medo, o que temos à nossa frente é um abismo, mas quando damos um passo em frente, o que temos à frente é uma ponte.”

“Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, (…).
(…), a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é o que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador, um despertador que nos acorda para a inevitabilidade dos nossos erros. (…) A solução seria termos todos uma caveira na mesinha-de-cabeceira, como fazem os monges cartuxos, para nos servir de despertador e todos os dias sabermos que temos de acordar, não para viver a rotina fatal do quotidiano, mas a vida apaixonada de alguém que ainda sabe que existem nuvens, céu, beijos.” 

Flores |Afonso Cruz

Há pessoas que passam por nós e, sem fazer a mínima ideia da nossa existência, fazem-nos tão bem.

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Um bocado de mim

“Sem metáforas, por exemplo, não é muito interessante falar. Eu posso dizer que uma janela é uma janela, mas isso já toda a gente sabe. Com a poesia posso dizer que uma janela é um bocado de mar ou uma cotovia a voar.
Mentiras.
Por vezes são as únicas verdades.
(…)
Uma janela é uma janela, mas uma janela que é um pássaro a voar é uma realidade mais profunda, para lá do vidro, algo que está para além da definição, mas que faz parte dela e que a descreve, ainda que por um breve momento.  Uma janela é muitas coisas e…” (Vamos Comprar um Poeta)

Como é hábito, de manhã, bem cedo, as janelas abriram-se. A brisa, borrifada com um suave aroma de primavera, entrou e fez das suas. Depois de rodopiar pela casa, encostou-se à Janela, soprou uma vela e sussurrou: Parabéns! Fazes hoje um ano.
Foi há um ano que “decidi abrir uma parte Da minha Janela para o Mundo”; foi aqui que, até ao momento, umas quantas imagens se juntaram a uns quantos devaneios teresianos e dançaram ao som das músicas que alimentam a minha alma. O balanço?! Tem sido um desafio crescente, mas leve e sem obrigações (já nos chegam aquelas que são impostas no dia-a-dia),  tal e qual como gosto. Funciona (quase) como uma terapia. Vou fazer por melhorar, mantendo a simplicidade que tanto me apraz.

Como forma de agradecimento, aos que espreitaram por esta Janela, partilho duas frases que repito todos os dias, como se de orações se tratassem:

“Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.” (Flores)

“Tenho milhas a percorrer antes de dormir.” (Vamos Comprar um Poeta)

A todos, sem qualquer exceção, a minha gratidão. Um abraço especial e um sorriso aos que acreditaram (sempre!) e contribuíram para o primeiro aniversário desta Janela, que me é tão especial.
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P.S. As frases partilhadas são do escritor Afonso Cruz