Partilha

“Por vezes sorriam como se partilhassem uma qualquer forma rara de felicidade. E talvez de facto partilhassem. A felicidade de viver cada momento como se não houvesse nada mais a fazer senão isso.”

Entre Janelas | Elsa Margarida Rodrigues

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Sanidade

“Quando chego a casa, encontro-a dentro da banheira; mas a banheira está vazia e ela completamente vestida. Esta visão é surpreendente e perturba-me um pouco; contudo, a expressão do seu rosto é serena e tranquila, apaziguada. Sorrio, tento não me alarmar nem reagir precipitadamente, tento não denunciar que estou assustado; mas sou incapaz de me aproximar dela e acariciar-lhe o cabelo (o que teria feito, em circunstâncias normais, se ela estivesse nua e a banheira cheia de água fumegante). Respiro fundo e, esquecendo-me de continuar a sorrir, pergunto o que se passa.
– Nada de especial, acho eu. Estava apenas a pensar como a vida avança em ciclos; não é? Os dias que se sucedem, e depois as semanas, os meses, os anos; tudo ordenado e previsível. Como se vivêssemos permanentemente no interior de uma rotunda, sempre às voltas; porque tudo é circular, tudo se repete. E como podemos inverter isto? Como quebrar a linearidade do tempo, como desafiar o destino, como enganar o futuro e torná-lo mesmo inesperado? Já alguma vez pensaste nisso?
Não. Nunca pensei na linearidade do tempo.
– Eu penso nisso, por vezes. Afinal, o que tem o futuro de verdadeiramente imprevisível? Que efectivo grau de surpresa nos reserva o futuro? A sério que não pensas nisso?
A sério.
– Mesmo que os eventos nos surpreendam, nós somos sempre nós; somos uma espécie de constante que vai evoluindo mas sem efectivamente mudar, na essência. E seremos sempre incapazes de nos surpreender a nós próprios, é esse o problema; é isso que nos perturba e irrita, que nos deprime: nunca teremos surpresas genuínas porque o futuro que está para vir será uma mera repetição de algo que já aconteceu, algo que já nos aconteceu.
E cala-se, como se não houvesse nada mais para dizer.
– Só podemos dar e receber o primeiro beijo uma vez; só uma vez, e acabou. Todos os restantes beijos da nossa vida serão repetições do primeiro; percebes? E até poderão ser repetições melhores mas não deixarão de ser repetições. É um bocado assustador, não é?
Encolho os ombros; mas ela não me está a olhar.
– Portanto, apenas nos resta tentar desafiar o futuro, forçá-lo a surpreender-nos. E é nisto que tenho pensando, em formas de contornar a previsibilidade do que ainda há-de vir.
Sorri. Como se, afinal, tudo estivesse normal. Como se fosse uma manhã de sábado repleta de sol e a banheira estivesse a transbordar de água, a casa de banho cheia de vapor e de um cheiro inebriante a champô de coco, e estivéssemos a falar daquele programa de culinária que tínhamos visto no outro dia; tudo normal.
– Sabes de que me lembrei? Que poderia tentar inverter as coisas: recusar-me a ficar à espera que o futuro me surpreenda mas surpreender, eu própria, o futuro. Fazer algo improvável e inesperado, inexplicável (talvez aquilo que muitos chamam loucura, percebes?), algo que perturbe o natural fluir dos acontecimentos, enganando e baralhando o futuro. Achas que o futuro pode ser baralhado? Eu acho que sim, que podemos tentar inverter a normalidade, podemos tentar suspender a metódica e circular marcha do tempo. Ou, pelo menos, brincar com o tempo, provocando-o um pouco; provocar-lhe soluços.
Poderia dizer-lhe que se estava a contradizer, ao desejar que tudo fosse diferente quando acabara de afirmar que nunca existirá genuína surpresa na vida de alguém; mas talvez seja a contradição que nos desafie e faça avançar, talvez a harmonia apenas conduza ao conformismo e à letargia, à resignação.
– Há pessoas que pensam que a vida é como um jogo de xadrez; e depois decoram jogadas inteiras, planeiam tudo, antecipam tudo, imaginam que controlam tudo; esquecendo que quem joga com elas também tem as suas próprias estratégias, esquecendo que o destino tem as suas próprias estratégias. Diz-me, o que será preferível: jogar por instinto ou jogar planeado? Quanto a ti, não sei. Mas eu estou um bocado cansada de jogar planeado, de seguir as regras, de repetir. Estou mesmo. E estava aqui a imaginar o que pensará o destino quando me vir assim, vestida e sorridente numa banheira vazia. Achas que ficará baralhado? Tu ficaste.
E sorri, uma vez mais. Não sei o que pensar, o que sentir; não sei se ela terá ficado momentaneamente louca ou se está simplesmente certa. Permanecemos em silêncio, escutando apenas o distante rumor do universo (aquele rumor que, no fundo, mais não é do que um indisfarçável bocejo). Mas reparo que estou a sorrir, que por algum motivo desconhecido começara a sorrir; e é a sorrir que pergunto: deixas-me entrar, posso juntar-me a ti?
E depois, beijo-a. Como se fosse a primeira vez.”
Loucura | Paulo Kellerman

Um conto e  31 imagens

“Estamos aqui, o caminho também tem lugar”

“O distante perde distância quando se vai lá. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar o planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vida lá como há vida aqui.”
O Caminho Imperfeito | José Luís PeixotoP1090521

Amanhã começa a escola

Deitado à sombra de uma árvore, aquela que o senhor António batizou como sendo minha, com a cabeça apoiada nas mãos e uma palha na boca, recordo, com um sorriso, as férias. Como foram bons os dias em que o ajudei a passear as ovelhas, colina acima, colina abaixo. Viajei no tempo, ouvindo atentamente as suas histórias.  O seu rosto e as suas mãos contam, sem ser necessária uma única palavra, o quão difícil foram muitos dos seus dias. Mas, ainda assim, é a serenidade da sua voz e a meiguice do seu toque quando me segura a mão que tornam estas numas férias em pleno.
O senhor António está a dormir a sesta e daqui pouco vai levar-me a um sítio especial. Anseio pelas quinze horas, para o esperar, conforme o combinado, no banco de pedra, junto a sua casa.

Tic… Tac.. Tic… Tac… Tic… Tac…

Quinze horas…

Aqui estou, sentado no banco de pedra. Ouço a bengala bater no soalho de madeira, seguido do ranger da porta. O senhor António acordou. Sai de casa com uma caixa que pede para levar. Com firmeza segura a minha mão como nunca o fez até hoje. Caminhamos durante uns minutos, em silêncio. Chegamos a um edifício abandonado.

– Esta foi… desculpa… é a minha escola. – afirma o senhor António, deixando que as lágrimas lhe invadam o olhar. – Ainda hoje recordo o sorriso da professora, a dona Gertrudes. Era do norte e, orgulhosamente, trocava os v’s pelos b’s. Como gostava de a ouvir! Foi ela que no primeiro dia de escola, na terceira classe, pediu que fizéssemos uma redação sobre as férias. Nesse verão, depois de vir da serra com o meu pai, jogava à bola, na rua, com os rapazes da aldeia. Mas não foi isso que me marcou. Foi nesse verão que me apaixonei pela menina mais linda do mundo. Enchi-me de coragem e a minha redação deu lugar a uma declaração de amor àquela que ainda hoje me atura. Frequentemente a timidez tomava conta de mim. Nesse dia, quando a dona Gertrudes perguntou quem queria ler o que tinha escrito, fui o primeiro a levantar o braço. Com as pernas a tremer, subi ao estrado. A voz, essa, tremia ainda mais que as pernas. Fez-se um silêncio que ainda hoje consigo sentir. No final, quando terminei, temia ser gozado. Todos se levantaram e baterem palmas. A dona Gertrudes, disfarçadamente, limpou as lágrimas, abraçou-me e segredou: «parabéns, António! Essa menina é uma sortuda!».
Estás a ver aquela janela aberta, no segundo andar, no canto superior esquerdo, com a persiana semicerrada?! Essa era a minha sala. Este era o campo onde passávamos os intervalos. Abre a caixa, por favor.
– Uma bola de futebol!!!, digo eu espantado.
– Sim, a bola com que joguei no verão em que deixei para trás todos os medos; o verão em que descobri o amor. Quero que fiques com ela. Quero que inicies o novo ano, amanhã, sem medos.

Regressamos a casa. Trago a mão direita bem apertadinha na mão esquerda do senhor António. Debaixo do outro braço trago a bola, como se se tratasse de um troféu.
Agora sim, anseio que chegue o primeiro dia de escola. Espero que a professora peça para escrever uma composição sobre as férias. Quero ser o primeiro a ler, com a bola aos meus pés.

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Foto de Marco Gil

Danças?

“(…) vivemos numa tapeçaria e que, por mais longe que estejamos uns dos outros, somos a mesma história, fazemos parte do mesmo tapete, a morte de uns é o nascimento de outros, a face da nossa vitória é a derrocada de alguém. (…) a nossa história nunca é só a nossa história, é uma vastidão tão grande que custa mapear. Faremos os possíveis. Resistiremos à pequenez a que nos prendem, ao nome que somos, ao corpo ridículo que temos, resistiremos à Conservatória, ao estado larvar a que fomos condenados, porque somos muito mais compridos do que isso, muito mais antigos, muito mais vastos. Temos asas coloridas de borboletas dentro de casulos pútridos e cinzentos que chamamos realidade objectiva ou identidade ou individualidade.”

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“Pousei a cédula do senhor Ulme na prateleira e disse:
– Já sabemos em que ano nasceu.
– Eu sei que ano nasci, cavalheiro. Não precisava de consultar a minha cédula.
– Muito bem. E agora?
– Agora, o quê?
– Próximo passo.
– O cavalheiro sabe dançar?
(…)
– Eu não consigo dançar, acho que não nasci com os genes necessários.
– Genes?
– Que se lixem os genes. Nem sequer se vêem a olho nu. São uma desculpa ridícula, uma desculpa que nem se vê a olho nu.
– A verdade é que nem sei por onde começar.
– Solte as ancas, cavalheiro, que o próximo passo virá naturalmente.(…)”
Flores | Afonso Cruz

Lugares felizes

“Jaipur tem mais de 3 milhões de habitantes. Foi a Cidade Rosa que Chanda e Kami escolheram para viver. Ainda que rodeados por tanta gente é nos momentos de maior solidão acompanhada que se lembram de um passado ali tão perto, porque a dor quando é a sério demora a passar.
Volvidos 10 anos, não há um dia que não se lembrem daqueles dias maus, de quando o pai chegava a casa e batia na mãe só porque a bebida no bar tinha acabado.
A adolescência de Kami sempre foi moldada pela passado; é ansioso e acorda muitas vezes durante a noite, com o pensamento uma década atrás. Acorda sempre inquieto e depois tem dificuldade em voltar a adormecer. Mesmo assim, a vida foi refeita. Chanda trabalha numa loja de especiarias e Kami entrou há um mês na faculdade, a 3 horas de casa. O coração que sempre foi um, voltou a desunir-se e Kami vem ver a mãe a casa duas vezes por semana. Estuda psicologia, diz que quer ajudar as pessoas que passaram o mesmo que a mãe ou mesmo ele. Evitar que o mundo se destrone pelos laços familiares e fazer das famílias lugares felizes que possam durar para sempre. Que nunca ninguém tenha uma carruagem com 10 anos de atraso para apanhar. Que ninguém precise de fugir.
Hoje Kami regressa a casa, vem passar um mês de férias e a mãe aguarda ansiosamente por ele na estação, estão a minutos do mesmo abraço de sempre, mas mesmo assim Chanda não controla a emoção, porque é como se o abraçasse pela primeira vez ou às vezes pela última. Sete minutos depois Kami chegou, o sorriso de ambos uniu-se e depois os braços estenderam-se e o coração agregou-se um no outro, como sempre… ou para sempre.”
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As palavras que dão vida a esta imagem são do Marco Gil.