Minúsculo vs Infinto

De como um rectângulo pode ser infinito dentro dos seus limites; de como o Homem pode ter as mesmas características

    Leon Battista Alberti dizia que, antes de começar a pintar o artista deve desenhar um rectângulo e que esse rectângulo é a janela para a cena que se quer retratar. Este é o milagre da perspectiva: a lonjura faz as coisas pequenas, faz um milagre. Diz-se que o recipiente é maior, é sempre maior do que o conteúdo, e que o contrário não se pode verificar. É falso, como comprova a minha janela pequenina. Nela cabe uma paisagem gigantesca. É o milagre da perspectiva. Mas daqui devem concluir-se mais coisas, a saber:
     Coisa número um: num homem pequeno, minúsculo, pode assim caber algo muito maior do que ele. Dentro do homem cabem mares e paisagens, o infinito e o próprio Deus do Universo, o meu gato que já morreu e de que sinto uma tremenda falta.
     Coisa número dois: o Homem é uma janela pequenina. E com isto diz-se tudo o que há para dizer sobre o Homem. Diz-se que é minúsculo e diz-se que é infinito.
Mil Anos de Esquecimento | Afonso Cruz

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Vida apaixonada

Há dias que, quando menos esperamos, somos abençoados. Atingimos um estado de leveza tal que se uma brisa se cruzasse connosco levar-nos-ia a todos os sítios onde fomos/somos verdadeiramente felizes.
No caminho cruzo-me com um peregrino. Sinto profunda admiração por quem embarca nestas viagens interiores. O brilho no olhar e o sorriso são a minha saudação a este grande “viajante”, sussurrando: ultreia.
A melhor descrição que, até ao momento, ouvi para explicar a dimensão da palavra ultreia foi da boca de Afonso Cruz. Julgo que já aqui o referi uma vez, mas há palavras que nunca me canso de ouvir/ler. Aqui está: “Ultreia que significa um passo mais além. É dar um passo além.(…) Quando temos medo, o que temos à nossa frente é um abismo, mas quando damos um passo em frente, o que temos à frente é uma ponte.”

“Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, (…).
(…), a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é o que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador, um despertador que nos acorda para a inevitabilidade dos nossos erros. (…) A solução seria termos todos uma caveira na mesinha-de-cabeceira, como fazem os monges cartuxos, para nos servir de despertador e todos os dias sabermos que temos de acordar, não para viver a rotina fatal do quotidiano, mas a vida apaixonada de alguém que ainda sabe que existem nuvens, céu, beijos.” 

Flores |Afonso Cruz

Há pessoas que passam por nós e, sem fazer a mínima ideia da nossa existência, fazem-nos tão bem.

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Sinto o teu coração…

… quando intensamente encostamos os nossos corpos um contra o outro. Nesse mesmo instante, sinto a tua alma. O mundo pára e aquele aperto mágico transformou segundos em minutos; em horas; em dias; em meses; em anos; … foi um abraço eterno e… ainda dura.

O que dizem os abraços

Juntar as pontas dos ombros e dar algumas palmadinhas nas costas não é um abraço. Escrever “abraço” no fim de um e-mail também não é um abraço. Indiferente ao desenvolvimento social e tecnológico, um abraço continua a ser duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

Esses rapazes que aparecem com cartazes a oferecerem abraços nos festivais de verão têm graça e talvez sejam bem-intencionados, mas fazem publicidade enganosa. Não são os abraços que provocam as ligações, são as ligações que provocam os abraços. Um abraço não é apenas duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

Um abraço tem muita importância.

Quando eu era uma criança, teria talvez uns nove ou dez anos, o meu pai deu-me um abraço na cozinha da nossa casa. Era de madrugada porque essa era a hora em que, naquele tempo, se saía da minha terra quando se ia para Lisboa. O meu pai tinha uma operação marcada no hospital, estava vestido com as roupas novas e tinha medo. Enquanto me abraçava, o meu pai chorou porque, durante um momento, acreditou que podia nunca mais me ver. Os braços do meu pai passavam-me pelos ombros, a minha cabeça assentava-lhe na barriga, sobre o pullover. A lâmpada que tínhamos acesa por cima da cabeça espalhava uma luz que amarelecia tudo o que tocava: a mesa onde jantávamos todos os dias, o ar que ali respirámos em tantas horas anteriores àquela, em tantas horas ignorantes daquela. O meu pai usava um aftershave muito enjoativo, barato, que alguém lhe tinha oferecido no Natal. Agora mesmo, consigo ainda sentir esse cheiro com nitidez absoluta.

A operação correu bem. Depois do susto, depois da convalescença, o meu pai voltou para casa com uma cicatriz grossa e roxa na barriga, ficava à vista quando a camisa lhe saía para fora das calças ou na praia, apesar de usar os calções exageradamente puxados para cima. Depois disso, tivemos direito a nove anos em que não voltámos a pensar em despedidas.

Durante muito tempo procurei em toda a minha memória: as lembranças de quando regressou da operação ou, depois, quando tínhamos a mesma altura ou, mesmo depois, quando ficou doente pela última vez. Mas abandonei as buscas, não consigo recordar outra ocasião em que nos tenhamos voltado a abraçar. Essa madrugada na cozinha, a luz amarela, o aftershave, foi a única vez em que nos abraçámos na vida.

Não afirmo com leveza que um abraço tem muita importância. Há quinze anos que escrevo livros apenas sobre esse abraço.”

José Luís Peixoto | Notícias Magazine | 22 de novembro de 2015

Distâncias infinitas

“Expliquei à professora que na sala de aula tudo era perto e que nada se distanciava de nada como nos montes da paisagem. Mas a professora negou. Disse-me que o rosto de cada um também era imenso como a paisagem e, visto com atenção, tinha distâncias até infinitas que importava percorrer.
Nesse dia, voltei da escola como se tivesse a tampa da cabeça aberta e os pensamentos me fugissem para o vento.
(…)
Percebi que para dentro de nós há um longo caminho e muita distância. Não somos nada feitos do mais imediato que se vê à superfície. Somos feitos daquilo que chega à alma, e a alma tem um tamanho muito diferente do corpo. (…) O rosto começa onde se vê e vai até onde já não há luz nem som. (…) Entendi que o rosto é extenso e infinito, capaz de expressões que vamos conhecendo e outras que nunca vemos. Toda a vida precisamos estar atentos, senão vamos perder muito do mais importante que acontece em nosso redor. Como se houvesse um incêndio mesmo diante de nós e nem sequer o percebêssemos antes de estar tudo completamente queimado.
O Rosto | Valter Hugo Mãe

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(Re)encontro

Quando alguém especial… desculpem, enganei-me… Quando alguém MUITO especial escreve com o coração uma imagem minha, o resultado é um sorriso, daqueles que nasce bem de dentro e se dá a conhecer ao mundo exterior sob a forma curva, nos lábios,  e se prolonga num intenso brilho no olhar.

Sintam…

“Partilharam-se durante o momento. A borboleta ofereceu a beleza da sua delicada silhueta. O rosmaninho as suas cores e perfumes. Prometeram um reencontro.”
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O coração das palavras é da Tânia Magalhães.
(Re)encontramo-nos todos os dias.

Um bocado de mim

“Sem metáforas, por exemplo, não é muito interessante falar. Eu posso dizer que uma janela é uma janela, mas isso já toda a gente sabe. Com a poesia posso dizer que uma janela é um bocado de mar ou uma cotovia a voar.
Mentiras.
Por vezes são as únicas verdades.
(…)
Uma janela é uma janela, mas uma janela que é um pássaro a voar é uma realidade mais profunda, para lá do vidro, algo que está para além da definição, mas que faz parte dela e que a descreve, ainda que por um breve momento.  Uma janela é muitas coisas e…” (Vamos Comprar um Poeta)

Como é hábito, de manhã, bem cedo, as janelas abriram-se. A brisa, borrifada com um suave aroma de primavera, entrou e fez das suas. Depois de rodopiar pela casa, encostou-se à Janela, soprou uma vela e sussurrou: Parabéns! Fazes hoje um ano.
Foi há um ano que “decidi abrir uma parte Da minha Janela para o Mundo”; foi aqui que, até ao momento, umas quantas imagens se juntaram a uns quantos devaneios teresianos e dançaram ao som das músicas que alimentam a minha alma. O balanço?! Tem sido um desafio crescente, mas leve e sem obrigações (já nos chegam aquelas que são impostas no dia-a-dia),  tal e qual como gosto. Funciona (quase) como uma terapia. Vou fazer por melhorar, mantendo a simplicidade que tanto me apraz.

Como forma de agradecimento, aos que espreitaram por esta Janela, partilho duas frases que repito todos os dias, como se de orações se tratassem:

“Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.” (Flores)

“Tenho milhas a percorrer antes de dormir.” (Vamos Comprar um Poeta)

A todos, sem qualquer exceção, a minha gratidão. Um abraço especial e um sorriso aos que acreditaram (sempre!) e contribuíram para o primeiro aniversário desta Janela, que me é tão especial.
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P.S. As frases partilhadas são do escritor Afonso Cruz