Pedaços de vida

A menina faz um sorriso tão bonito e pacífico, tão generoso e puro, que me encanta e me conquista de imediato e para sempre. Dá-me o melhor de si, sem que eu tenha sequer pedido. Não sei como retribuir tão generosa dádiva. E se o mundo fosse todo assim, um mundo em que todos damos de imediato e sem condições, a alguém que ainda nem conhecemos, o melhor que temos?

Aproximo-me da menina e, com gestos que pressinto envergonhados, pergunto-lhe se posso tirar-lhe uma fotografia; acena que sim, mantendo o sorriso imperturbável. Fixo o seu sorriso para sempre, não apenas no cartão da máquina mas na minha memória, naquilo a que chamam alma e onde guardamos tudo o que nos faz viver. Depois, chamo a menina e mostro-lhe o seu retrato. Olhamos em silêncio para o ecrã da máquina; vemos um sorriso, partilhamos um sorriso, perpetuamos um sorriso. O momento dura uma eternidade, que é o que sempre acontece aos momentos que guardamos na alma.

Chamam-me a colecionadora de sorrisos, mas por vezes sinto-me mais que tudo uma guardadora de sorrisos; sinto que transporto comigo pedaços de alma de tanta gente, guardados na minha própria alma; na alma que vou construindo dia-a-dia com tantos pedaços de vida em forma de sorrisos.

Texto | Paulo Kellerman

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Um bocado de mim II

Raiz quadrada de quatro. Raiz quarta de dezasseis. O produto de oito por um quarto. Ou simplesmente dois. Sim, é verdade!! A Janela está de parabéns! Faz hoje dois anos que “decidi abrir uma parte Da minha Janela para o Mundo”.  Aos que por aqui andam, parabéns! Mas acima de tudo tamanha gratidão.

O encanto pelas janelas…
“Janelas. Podemos abrir. Podemos fechar. Podemos semicerrar. Podemos deixar entrar a luz. Ou fechar, se queremos a escuridão. Podemos entreabrir e sussurrar, em misterioso lusco-fusco. E apreciar o movimento das sombras. Deixá-las lentamente fluir ou brincar com elas. Janelas. Há um sabor apimentado ao saltar a janela. Um cheiro a perigo e um sentir os pés em terreno movediço. Janelas. São muito melhor que portas. São as janelas.”
Palavras | Renata Barbosa
Projeto | Fotografar Palavras

O encanto pelos amigos…
“Há janelas que nos fazem crescer, que nos fazem sonhar, que nos fazem sorrir. Janelas que nos fazem ver para além daquilo que conhecemos, daquilo que sentimos, daquilo que esperamos. Janelas que nos interpelam e desafiam, que nos desassossegam ou confortam. Janelas que nos fazem mexer. Janelas que são como amigos.”
Palavras | Paulo Kellerman

A todos, um abraço especial aos que acreditaram (sempre!) e contribuíram para a continuidade desta Janela, que faz parte de mim.
Que a criança que existe dentro de cada um de nós se conserve e a loucura vá apurando.

Muitos voos e mil sorrisos 🙂

IMG-20180410-WA0024Foto | Born Freee

 

 

Resiliência humana

Hoje em dia inúmeras aldeias portuguesas dão lugar ao abandono. Algumas casas estão fechadas. Outras desamparadas. Os pouco habitantes que por lá subsistem vivem de memórias. Ouço com atenção a Dona Irene contar que tem dois filhos e, algo confusa quanto ao número de netos, conclui que é avó de dois meninos e uma menina. Partiram em busca de uma vida melhor.
Cabaços tem apenas dois moradores. As galinhas e os patos passeiam pelos caminhos e fitam o olhar, pois não passamos de uns intrusos. O cheiro intenso a animal (e não só) perfuma a aldeia deserta.
– Quando precisa de algo, a que localidade se dirige? E quanto tempo demora?
– Arouca. Quanto tempo?! Não sei quanto é, mas é muito.

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Colecionadora de Sorrisos

8:30. Passagem pelo raio X. Carimbo no bilhete. Estou pronta para entrar naquele conjunto de paralelepípedos, com vértices polidos e unidos pelo cheiro da creolina. O branco, o azul e o verde dão cor àquele que me conduzirá de Samarcanda, a emblemática cidade da Rota da Seda, rumo a Tashkent. O meu destino é a capital daquele país com nome estranho e difícil de pronunciar – pelo menos à primeira tentativa – Uzbequistão.

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Um misto de nostalgia e fascínio apodera-se de mim.

“A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com descanso, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de aço, assobiando e gozando a beleza da terra e do céu”. Não é igual à experiência de Eça de Queirós em “A Cidade e as Serras”, mas é assim que me sinto.

A carruagem que me pertence está quase vazia. É um convite para percorrer o comboio de lés a lés.

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Aqui viajam famílias que, ao fim de escassos minutos, são minhas também. A vontade de socializar ultrapassa toda e qualquer barreira linguística. Os sorrisos dourados, tão característicos do povo uzbeque, são linguagem universal para a interação. Partilha. Descoberta.

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O intenso aroma do chá acabado de fazer percorre os estreitos corredores e perfuma as carruagens. O branco dos lençóis serve de mesa de jogo ou de descanso para as horas de viagem que ainda restam. A timidez é vencida pela curiosidade. Sento-me para fotografar e retribuir a generosidade dos sorrisos e dos abraços das crianças. «Portugália», assim chamam ao país, que é meu, plantado à beira-mar.

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11:45. Regresso ao lugar inicial com um pão oferecido. Aproveito o tempo que me resta. O leve balançar da locomotiva fecha-me os olhos e absorvo as vivências. Dizem que as pessoas têm impressões digitais únicas e irrepetíveis, uma marca distintiva: os dedos (e o toque) de cada indivíduo são únicos e irrepetíveis, e tornam cada pessoa precisamente única e irrepetível. É o que dizem e eu acredito. Mas creio que existe uma característica ainda mais distinguível. Se as impressões digitais são a característica diferenciadora de cada corpo, qual será a de cada alma? O sorriso, penso. Porque, apesar de ser uma ação do corpo, exprime e materializa um sentir da alma. Como se fosse a janela da alma. É nisto que me foco durante a viagem, perante o desfile de sorrisos com quem me brindam. Lembro o meu velho projeto de criança, de quando ainda era mais criança: partir pelo mundo e descobrir todos os sorrisos possíveis. Colecionar sorrisos. Lembro a minha resposta tonta, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande: colecionadora de sorrisos.  E sorrio, junto o meu sorriso ao de todas estas pessoas que, apesar de não conhecer, sinto muito próximas de mim. Abriram as suas janelas.

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12:30. O comboio chega a Tashkent.

[Parceria nas palavras: O coleccionador de abraços, Paulo Kellerman]

Khei-va

Segundo a lenda, contada por um taxista autodidata no inglês, o nome da cidade nasceu da voz do filho de Noé. Como a terra era muito seca, após ter escavado um buraco encontrou água e quando bebeu proferiu: Khei-va  (que boa).
Lugar integrante da Rota da Seda. Madraças, mesquitas, mausoléus e minaretes decoram o interior das muralhas desta cidade, uma das mais antigas da Ásia Central, reconhecida como Património Mundial pela UNESCO em 1990.
Não descurando o museu a céu aberto, hoje perco-me nas ruelas labírinticas e cruzo-me com as brincadeiras das crianças, com as bicicletas abandonadas mas cúmplices de muitas aventuras, com os sorrisos, com a simpatia genuína por vezes contaminada por uma certa timidez. É esta desordem organizada que me seduz; é a possibilidade de descoberta e surpresa que surge ao virar da esquina que me encanta.
Bem-vindos à fascinante Khiva!

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