Diálogos

Este senhor fala russo (acho eu). E o meu russo resume-me a uma única palavra: spasiba. Perguntei, em bom português, se o podia fotografar, levantando a máquina. O senhor anuiu e manteve o sorriso com que se dirigira a nós. Fotografei. Agradeci e estendi a mão que, imediatamente, foi apertada pelas suas como gesto de gratidão. A barreira da língua pode ser inibidora mas não impede que haja diálogo. Comunicámos através do olhar, do sorriso, das mãos. 

Ao som do vento…


“I remember the sound of the wind as I was falling asleep. The tree branches scraping the roof like people whispering. I arrived here one winter morning or maybe it was spring. I can’t remember anymore. The mind plays tricks.
(…)
I came here because I wanted a home where I can find peace. Where I can be treated like anyone else. Where I can be anyone I want to be.”

https://open.spotify.com/track/7hXAREDWLqX7OVDwEjQMTr

Mantra

Há livros, frases e certas palavras que devem ser lidos todos os dias, como se de mantras se tratassem. Aliás, atrevo-me a dizer que deviam ser prescritos em hospitais, recomendados nas escolas ou até mesmo ao vizinho do andar de baixo. E já agora, ao do andar de cima também. Jamais devemos deixar cair no esquecimento. Este é um deles…

“(…) E muitas vezes acabamos por compatibilizar os nossos desejos àquilo que prevemos que possa acontecer, àquilo que é mais plausível que aconteça; abdicamos de desejar o que efectivamente poderíamos desejar, porque o tememos inalcançável, para nos contentarmos em desejar aquilo que cremos realizável e exequível. É como se existisse uma espécie de central sindical reaccionária dentro de cada um de nós, a reivindicar não a evolução e o crescimento e a mudança mas a simples manutenção da situação; e sob a influência desta central sindical, passamos a viver numa espécie de patamar mínimo de desejo e felicidade, acantonados nos nossos direitos adquiridos; habituamo-nos a esse patamar mínimo, seguro e previsível, controlável; abdicamos de ambicionar e perseguir uma felicidade esplendorosa, inesperada e possivelmente aniquiladora (talvez avassaladora mas obviamente impossível de manter indefinidamente), para nos acomodarmos a uma amostra de felicidade mínima mas estável, uma espécie de serviços mínimos de felicidade, sem risco nem chama nem combustão. Procuramos paz e tranquilidade, quando talvez devêssemos ambicionar agitação e desassossego. Dizemos que vivemos cada dia como se fosse o último mas, na verdade, vivemos cada dia como se fosse o antepenúltimo. E habituamo-nos.
(…)
Sentindo a passagem dos segundos, contando-os um a um. E de repente apetece-me contá-los mesmo, murmurando os números em voz baixa e não apenas pensando-os mentalmente. Apetece-me contar mas não em contagem decrescente, como fizera antes; apetece-me começar do princípio, como se a vida estivesse a iniciar. Um-dois-três-quatros-cinco-seis-sete. Como se houvesse uma possibilidade de recomeço. Um novo nascimento. Doze-treze-catorze-quinze. Uma infinidade de segundos para preencher, para viver; alguns vazios, alguns banais, alguns dolorosos, alguns insuportáveis, alguns felizes; a felicidade possível, uma felicidade que momentaneamente até poderia ir além dos serviços mínimos. Vinte-e-um-vinte-e-dois-vinte-e-três-vinte-e-quatro. Quem sabe?”


Serviços Mínimos de Felicidade | Paulo Kellerman

Rosto de uma realidade

Longe dos centros urbanos de um país plantado à beira-mar há uma realidade que teima ser esquecida; há uma realidade feita de pessoas com mapas de vida no rosto e nas mãos; e livros de história no olhar e no coração. “Boa tarde” e um sorriso são as chaves para abrir a porta de uns bons minutos de aprendizagem e partilha. Este é o bonito rosto de uma realidade que teimo não esquecer…

Sonhos

“A realidade pode ser muito dura, mas os sonhos dão boas almofadas. O mundo pode ser de pedra, mas os sonhos são um colchão por cima dele e têm a teimosia e a ousadia de não desistir. Por mais que os afastemos, enxotemos como fazemos às moscas incómodas, os sonhos voltam sempre a assombrar-nos, a pousar-nos na cabeça, a picar-nos. Não é a dureza do mundo que vence, são estes insectos frágeis, sem ossos, sem corpo, a que chamamos sonhos, que acabam por fazer buracos no mundo, por o penetrar e vencer.”

Princípio de Karenina | Afonso Cruz