Depois…

Voltei para casa. Trazia comigo um sorriso que se estendia por este corpo franzino de um metro e sessenta. Apressei o passo quando me apercebi das horas… os meus pais estão quase a levantar-se. Entre passos acelerados e piruetas de felicidade, cheguei a casa. Descalcei-me e, em bicos de pés, fui para o quarto e ali fiquei, a ouvir música. Desta vez a cama, essa, não dava aquelas voltas tontas. E, por minutos, daqueles que são eternos, o meu corpo e a minha alma uniram-se para, sem limites, dançar. De olhos fechados, sorria e cantarolava “When you go? Go far”.

O cheiro da cevada acabada de fazer e o barulho do pão a brincar com a torradeira invadem o quarto. Não resisti.
– Bom dia, mãe! Bom dia, pai! Dormiram bem?
– Bom dia, filho! Já estás acordado?, indagou a mãe.
– Acordei agora mesmo.
– Hmmm… Tens alguma fisgada! Conheço esse sorriso…
– Estou feliz! Apenas isso… Feliz! Pai, posso ir com o senhor António, para o campo, ajudar a passear as ovelhas?
– Vai, mas porta-te bem!
– Claro que sim!

Saí porta fora a correr.

Voltei atrás… Pus o chapéu que estava no bengaleiro, por detrás da porta da cozinha. Mãe, almoço no campo. Beijinhos
– Este rapaz! Espera… disse a mãe, sem sucesso.

A manhã continua bonita. O sol pinta os campos de ouro e os pássaros dão melodia a estes lugares de paz.

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Desta vez é a magnífica fotografia do Marco quem dá vida às minhas palavras, que dançam ao som de “Hemma”, o single que integrará o álbum “Antwerpen”, com lançamento previsto para outubro, da banda-de-uma-só-mulher, Surma.

Relembro que o Marco anda por aqui:

http://www.marcogil.pt/

http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/24012/lisboa-e-para-todos

e

https://www.facebook.com/MarcoGilFotografia/

E aqui, Surma:

http://omnichordrecords.com/pt/artistas-2/surma-15/

https://www.facebook.com/surmaee/

e

https://surma.bandcamp.com/

Quanto a mim, estou à janela… a ver o mundo!

Deram as mãos…

“Deixaram tudo para trás… A começar pela vida.
Na Índia, o papel da mulher ainda não tem o valor que lhe merece e, foi também por isso que, Chanda sofreu de violência doméstica desde sempre. Demorou mais de meia década a voltar-se contra o medo que a fazia apenas sobreviver.
Foi pela manhã que decidiu fugir. Ele chegara novamente mal disposto e ela foi o bode expiatório de um problema que nem sequer conheceu. Kami tem apenas 9 anos e assistiu a tudo, como já acontecera por várias vezes e sempre com os olhos humedecidos de raiva. Mas sem nunca confrontar o pai, na melhor das hipóteses de assim o poder chamar. Esta manhã seria o abismo de uma vida já no cume há demasiado tempo.
Chanda aproveitou a ida do marido ao bar e começou a preparar duas malas de roupa, nas quais meteu a bomba de asma de Kami e pouco mais que o indispensável.
Saíram ao meio dia. Faltavam apenas quinze minutos para começar a viver.
Quando subiram o primeiro degrau do comboio, que os levava do inferno para fora, suspiraram de alívio e, aos poucos, Kami chorava entre soluços e lágrimas que lhe corriam fortemente do rosto. Creio que eram de felicidade, mas podia ser o peito a abrir-se para a esperança.
O comboio partiu e não olharam uma única vez trás. Deram as mãos e com as outras duas agarram-se com a certeza de quem parte para sempre. De um futuro que começa a dois, sem medo, violência, angústia e com a esperança de que um dia voltem a encontrar a felicidade…traçada por trilhos e carruagens sem fim, mas com um fim.
Hoje voltaram a sorrir e ainda que o coração padeça de cicatrizes, todos os dias voltam a acordar felizes e dispostos de as sarar para sempre.”
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A ideia partiu de uma ‘brincadeira’ – dar vida a uma foto que tirei numa viagem de comboio, em Bombaim. O Marco fê-lo melhor que ninguém. O grande Marco Gil. As palavras saem-lhe do coração e da alma. Gosto muito do modo intenso como escreve, mas confesso que este texto superou as minhas expectativas. Aliás, este texto superou-me. Estremeci, sentindo cada palavra.
Deixem-me ainda dizer que o Marco, além de escrever assim, fotografa ainda melhor. Para quem o quiser conhecer (se não quiserem, não sabem o que perdem!), ele anda por aqui:

http://www.marcogil.pt/

http://p3.publico.pt/category/free-tags/marco-gil

e

https://www.facebook.com/MarcoGilFotografia/