Amanhã começa a escola

Deitado à sombra de uma árvore, aquela que o senhor António batizou como sendo minha, com a cabeça apoiada nas mãos e uma palha na boca, recordo, com um sorriso, as férias. Como foram bons os dias em que o ajudei a passear as ovelhas, colina acima, colina abaixo. Viajei no tempo, ouvindo atentamente as suas histórias.  O seu rosto e as suas mãos contam, sem ser necessária uma única palavra, o quão difícil foram muitos dos seus dias. Mas, ainda assim, é a serenidade da sua voz e a meiguice do seu toque quando me segura a mão que tornam estas numas férias em pleno.
O senhor António está a dormir a sesta e daqui pouco vai levar-me a um sítio especial. Anseio pelas quinze horas, para o esperar, conforme o combinado, no banco de pedra, junto a sua casa.

Tic… Tac.. Tic… Tac… Tic… Tac…

Quinze horas…

Aqui estou, sentado no banco de pedra. Ouço a bengala bater no soalho de madeira, seguido do ranger da porta. O senhor António acordou. Sai de casa com uma caixa que pede para levar. Com firmeza segura a minha mão como nunca o fez até hoje. Caminhamos durante uns minutos, em silêncio. Chegamos a um edifício abandonado.

– Esta foi… desculpa… é a minha escola. – afirma o senhor António, deixando que as lágrimas lhe invadam o olhar. – Ainda hoje recordo o sorriso da professora, a dona Gertrudes. Era do norte e, orgulhosamente, trocava os v’s pelos b’s. Como gostava de a ouvir! Foi ela que no primeiro dia de escola, na terceira classe, pediu que fizéssemos uma redação sobre as férias. Nesse verão, depois de vir da serra com o meu pai, jogava à bola, na rua, com os rapazes da aldeia. Mas não foi isso que me marcou. Foi nesse verão que me apaixonei pela menina mais linda do mundo. Enchi-me de coragem e a minha redação deu lugar a uma declaração de amor àquela que ainda hoje me atura. Frequentemente a timidez tomava conta de mim. Nesse dia, quando a dona Gertrudes perguntou quem queria ler o que tinha escrito, fui o primeiro a levantar o braço. Com as pernas a tremer, subi ao estrado. A voz, essa, tremia ainda mais que as pernas. Fez-se um silêncio que ainda hoje consigo sentir. No final, quando terminei, temia ser gozado. Todos se levantaram e baterem palmas. A dona Gertrudes, disfarçadamente, limpou as lágrimas, abraçou-me e segredou: «parabéns, António! Essa menina é uma sortuda!».
Estás a ver aquela janela aberta, no segundo andar, no canto superior esquerdo, com a persiana semicerrada?! Essa era a minha sala. Este era o campo onde passávamos os intervalos. Abre a caixa, por favor.
– Uma bola de futebol!!!, digo eu espantado.
– Sim, a bola com que joguei no verão em que deixei para trás todos os medos; o verão em que descobri o amor. Quero que fiques com ela. Quero que inicies o novo ano, amanhã, sem medos.

Regressamos a casa. Trago a mão direita bem apertadinha na mão esquerda do senhor António. Debaixo do outro braço trago a bola, como se se tratasse de um troféu.
Agora sim, anseio que chegue o primeiro dia de escola. Espero que a professora peça para escrever uma composição sobre as férias. Quero ser o primeiro a ler, com a bola aos meus pés.

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Foto de Marco Gil

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Lugares felizes

“Jaipur tem mais de 3 milhões de habitantes. Foi a Cidade Rosa que Chanda e Kami escolheram para viver. Ainda que rodeados por tanta gente é nos momentos de maior solidão acompanhada que se lembram de um passado ali tão perto, porque a dor quando é a sério demora a passar.
Volvidos 10 anos, não há um dia que não se lembrem daqueles dias maus, de quando o pai chegava a casa e batia na mãe só porque a bebida no bar tinha acabado.
A adolescência de Kami sempre foi moldada pela passado; é ansioso e acorda muitas vezes durante a noite, com o pensamento uma década atrás. Acorda sempre inquieto e depois tem dificuldade em voltar a adormecer. Mesmo assim, a vida foi refeita. Chanda trabalha numa loja de especiarias e Kami entrou há um mês na faculdade, a 3 horas de casa. O coração que sempre foi um, voltou a desunir-se e Kami vem ver a mãe a casa duas vezes por semana. Estuda psicologia, diz que quer ajudar as pessoas que passaram o mesmo que a mãe ou mesmo ele. Evitar que o mundo se destrone pelos laços familiares e fazer das famílias lugares felizes que possam durar para sempre. Que nunca ninguém tenha uma carruagem com 10 anos de atraso para apanhar. Que ninguém precise de fugir.
Hoje Kami regressa a casa, vem passar um mês de férias e a mãe aguarda ansiosamente por ele na estação, estão a minutos do mesmo abraço de sempre, mas mesmo assim Chanda não controla a emoção, porque é como se o abraçasse pela primeira vez ou às vezes pela última. Sete minutos depois Kami chegou, o sorriso de ambos uniu-se e depois os braços estenderam-se e o coração agregou-se um no outro, como sempre… ou para sempre.”
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As palavras que dão vida a esta imagem são do Marco Gil.

 

Depois…

Voltei para casa. Trazia comigo um sorriso que se estendia por este corpo franzino de um metro e sessenta. Apressei o passo quando me apercebi das horas… os meus pais estão quase a levantar-se. Entre passos acelerados e piruetas de felicidade, cheguei a casa. Descalcei-me e, em bicos de pés, fui para o quarto e ali fiquei, a ouvir música. Desta vez a cama, essa, não dava aquelas voltas tontas. E, por minutos, daqueles que são eternos, o meu corpo e a minha alma uniram-se para, sem limites, dançar. De olhos fechados, sorria e cantarolava “When you go? Go far”.

O cheiro da cevada acabada de fazer e o barulho do pão a brincar com a torradeira invadem o quarto. Não resisti.
– Bom dia, mãe! Bom dia, pai! Dormiram bem?
– Bom dia, filho! Já estás acordado?, indagou a mãe.
– Acordei agora mesmo.
– Hmmm… Tens alguma fisgada! Conheço esse sorriso…
– Estou feliz! Apenas isso… Feliz! Pai, posso ir com o senhor António, para o campo, ajudar a passear as ovelhas?
– Vai, mas porta-te bem!
– Claro que sim!

Saí porta fora a correr.

Voltei atrás… Pus o chapéu que estava no bengaleiro, por detrás da porta da cozinha. Mãe, almoço no campo. Beijinhos
– Este rapaz! Espera… disse a mãe, sem sucesso.

A manhã continua bonita. O sol pinta os campos de ouro e os pássaros dão melodia a estes lugares de paz.

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Desta vez é a magnífica fotografia do Marco quem dá vida às minhas palavras, que dançam ao som de “Hemma”, o single que integrará o álbum “Antwerpen”, com lançamento previsto para outubro, da banda-de-uma-só-mulher, Surma.

Relembro que o Marco anda por aqui:

http://www.marcogil.pt/

http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/24012/lisboa-e-para-todos

e

https://www.facebook.com/MarcoGilFotografia/

E aqui, Surma:

http://omnichordrecords.com/pt/artistas-2/surma-15/

https://www.facebook.com/surmaee/

e

https://surma.bandcamp.com/

Quanto a mim, estou à janela… a ver o mundo!

Deram as mãos…

“Deixaram tudo para trás… A começar pela vida.
Na Índia, o papel da mulher ainda não tem o valor que lhe merece e, foi também por isso que, Chanda sofreu de violência doméstica desde sempre. Demorou mais de meia década a voltar-se contra o medo que a fazia apenas sobreviver.
Foi pela manhã que decidiu fugir. Ele chegara novamente mal disposto e ela foi o bode expiatório de um problema que nem sequer conheceu. Kami tem apenas 9 anos e assistiu a tudo, como já acontecera por várias vezes e sempre com os olhos humedecidos de raiva. Mas sem nunca confrontar o pai, na melhor das hipóteses de assim o poder chamar. Esta manhã seria o abismo de uma vida já no cume há demasiado tempo.
Chanda aproveitou a ida do marido ao bar e começou a preparar duas malas de roupa, nas quais meteu a bomba de asma de Kami e pouco mais que o indispensável.
Saíram ao meio dia. Faltavam apenas quinze minutos para começar a viver.
Quando subiram o primeiro degrau do comboio, que os levava do inferno para fora, suspiraram de alívio e, aos poucos, Kami chorava entre soluços e lágrimas que lhe corriam fortemente do rosto. Creio que eram de felicidade, mas podia ser o peito a abrir-se para a esperança.
O comboio partiu e não olharam uma única vez trás. Deram as mãos e com as outras duas agarram-se com a certeza de quem parte para sempre. De um futuro que começa a dois, sem medo, violência, angústia e com a esperança de que um dia voltem a encontrar a felicidade…traçada por trilhos e carruagens sem fim, mas com um fim.
Hoje voltaram a sorrir e ainda que o coração padeça de cicatrizes, todos os dias voltam a acordar felizes e dispostos de as sarar para sempre.”
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A ideia partiu de uma ‘brincadeira’ – dar vida a uma foto que tirei numa viagem de comboio, em Bombaim. O Marco fê-lo melhor que ninguém. O grande Marco Gil. As palavras saem-lhe do coração e da alma. Gosto muito do modo intenso como escreve, mas confesso que este texto superou as minhas expectativas. Aliás, este texto superou-me. Estremeci, sentindo cada palavra.
Deixem-me ainda dizer que o Marco, além de escrever assim, fotografa ainda melhor. Para quem o quiser conhecer (se não quiserem, não sabem o que perdem!), ele anda por aqui:

http://www.marcogil.pt/

http://p3.publico.pt/category/free-tags/marco-gil

e

https://www.facebook.com/MarcoGilFotografia/