8:30. Passagem pelo raio X. Carimbo no bilhete. Estou pronta para entrar naquele conjunto de paralelepípedos, com vértices polidos e unidos pelo cheiro da creolina. O branco, o azul e o verde dão cor àquele que me conduzirá de Samarcanda, a emblemática cidade da Rota da Seda, rumo a Tashkent. O meu destino é a capital daquele país com nome estranho e difícil de pronunciar – pelo menos à primeira tentativa – Uzbequistão.


Um misto de nostalgia e fascínio apodera-se de mim.
“A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslizou, com descanso, como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas de aço, assobiando e gozando a beleza da terra e do céu”. Não é igual à experiência de Eça de Queirós em “A Cidade e as Serras”, mas é assim que me sinto.
A carruagem que me pertence está quase vazia. É um convite para percorrer o comboio de lés a lés.


Aqui viajam famílias que, ao fim de escassos minutos, são minhas também. A vontade de socializar ultrapassa toda e qualquer barreira linguística. Os sorrisos dourados, tão característicos do povo uzbeque, são linguagem universal para a interação. Partilha. Descoberta.

O intenso aroma do chá acabado de fazer percorre os estreitos corredores e perfuma as carruagens. O branco dos lençóis serve de mesa de jogo ou de descanso para as horas de viagem que ainda restam. A timidez é vencida pela curiosidade. Sento-me para fotografar e retribuir a generosidade dos sorrisos e dos abraços das crianças. «Portugália», assim chamam ao país, que é meu, plantado à beira-mar.







11:45. Regresso ao lugar inicial com um pão oferecido. Aproveito o tempo que me resta. O leve balançar da locomotiva fecha-me os olhos e absorvo as vivências. Dizem que as pessoas têm impressões digitais únicas e irrepetíveis, uma marca distintiva: os dedos (e o toque) de cada indivíduo são únicos e irrepetíveis, e tornam cada pessoa precisamente única e irrepetível. É o que dizem e eu acredito. Mas creio que existe uma característica ainda mais distinguível. Se as impressões digitais são a característica diferenciadora de cada corpo, qual será a de cada alma? O sorriso, penso. Porque, apesar de ser uma ação do corpo, exprime e materializa um sentir da alma. Como se fosse a janela da alma. É nisto que me foco durante a viagem, perante o desfile de sorrisos com quem me brindam. Lembro o meu velho projeto de criança, de quando ainda era mais criança: partir pelo mundo e descobrir todos os sorrisos possíveis. Colecionar sorrisos. Lembro a minha resposta tonta, quando me perguntavam o que queria ser quando fosse grande: colecionadora de sorrisos. E sorrio, junto o meu sorriso ao de todas estas pessoas que, apesar de não conhecer, sinto muito próximas de mim. Abriram as suas janelas.






12:30. O comboio chega a Tashkent.
[Parceria nas palavras: O coleccionador de abraços, Paulo Kellerman]
viajar sem ir 🙂 obrigado 🙂
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Sorrisos e abraços partilhados… alimento da alma.
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