A menina faz um sorriso tão bonito e pacífico, tão generoso e puro, que me encanta e me conquista de imediato e para sempre. Dá-me o melhor de si, sem que eu tenha sequer pedido. Não sei como retribuir tão generosa dádiva. E se o mundo fosse todo assim, um mundo em que todos damos de imediato e sem condições, a alguém que ainda nem conhecemos, o melhor que temos?
Aproximo-me da menina e, com gestos que pressinto envergonhados, pergunto-lhe se posso tirar-lhe uma fotografia; acena que sim, mantendo o sorriso imperturbável. Fixo o seu sorriso para sempre, não apenas no cartão da máquina mas na minha memória, naquilo a que chamam alma e onde guardamos tudo o que nos faz viver. Depois, chamo a menina e mostro-lhe o seu retrato. Olhamos em silêncio para o ecrã da máquina; vemos um sorriso, partilhamos um sorriso, perpetuamos um sorriso. O momento dura uma eternidade, que é o que sempre acontece aos momentos que guardamos na alma.
Chamam-me a colecionadora de sorrisos, mas por vezes sinto-me mais que tudo uma guardadora de sorrisos; sinto que transporto comigo pedaços de alma de tanta gente, guardados na minha própria alma; na alma que vou construindo dia-a-dia com tantos pedaços de vida em forma de sorrisos.
Texto | Paulo Kellerman
