A nossa aldeia,…

a mais bonita, é da tua janela que a vejo.

Todos os dias regresso à janela do quarto da minha avó para ver o sol dar lugar à lua. É no infinito das montanhas que ele se recolhe e os tons alaranjados se mesclam com os verdes que me rodeiam. Ali, na janela do quarto da minha avó, ouço os chocalhos das ovelhas que calcorreiam as serras, na companhia do António, o pastor. Desde sempre que tenho um fascínio por este senhor. Acho até que ele tem um dom. Apesar da lonjura que nos separa, consigo ouvi-lo. Está longe e, simultaneamente, está tão perto. É como tu, avó. Também tens um dom. Brilhas todas as noites para mim. Vou contar-te um segredo… Nas noites de verão, quando todos estão a dormir, regresso ao teu quarto, à tua janela. Olho para ti  e sorrio. Consigo distinguir-te tão bem! O teu brilho é único e é meu. Fico ali, apoiado no parapeito a olhar para cima, até ao primeiro bocejo. Ouço a tua voz a contar-me uma e outra vez as histórias com que me embalavas. Nunca te disse, mas repetiste umas quantas. Não faz mal. Gostava sempre de te ouvir. Ah… desculpa não visitar-te no inverno, mas o frio da montanha não me deixa. No entanto, quer seja inverno ou qualquer outra estação, é da (sempre) tua janela que fico a admirar a nossa aldeia. Antes de regressar ao meu quarto, volto a sorrir e digo-te: obrigado, avó, por me fazeres sentir este encanto tamanho de pertencer à aldeia mais bonita.
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