Agora sim, é Natal

Setembro
Deitado à sombra de uma árvore, aquela que o senhor António batizou como sendo minha, com a cabeça apoiada nas mãos e uma palha na boca, recordo, com um sorriso, as férias. Como foram bons os dias em que o ajudei a passear as ovelhas, colina acima, colina abaixo. Viajei no tempo, ouvindo atentamente as suas histórias.  O seu rosto e as suas mãos contam, sem ser necessária uma única palavra, o quão difícil foram muitos dos seus dias. Ainda assim, é a serenidade da sua voz e a meiguice do seu toque quando me segura a mão que tornam estas numas férias singulares.

O senhor António está a dormir a sesta e daqui a pouco vai levar-me a um sítio especial. Anseio pelas quinze horas, para o esperar, conforme o combinado, no banco de pedra, junto a sua casa.

Tic… Tac.. Tic… Tac…

Quinze horas…

Aqui estou, sentado no banco de pedra. Ouço a bengala bater no soalho de madeira, seguido do ranger da porta. Sai de casa com uma caixa que pede para levar. Com firmeza, segura a minha mão como nunca o fez. Caminhamos durante uns minutos, em silêncio. Chegamos a um edifício abandonado.

– Esta foi… desculpa… é a minha escola. – afirma o senhor António, deixando que as lágrimas invadam o olhar.

Ainda hoje recordo o sorriso da professora, a dona Gertrudes. Era do norte e, orgulhosamente, trocava os v’s pelos b’s. Como gostava de a ouvir! Foi ela que no primeiro dia de escola, na terceira classe, pediu que fizéssemos uma redação sobre as férias. Nesse verão, depois de vir da serra com o meu pai, jogava à bola, na rua, com os rapazes da aldeia. Mas não foi isso que marcou. Foi nesse verão que me apaixonei pela menina mais linda do mundo.

Embevecido, ouço atentamente.

– Enchi-me de coragem e a minha redação deu lugar a uma declaração de amor àquela que ainda hoje me atura. Frequentemente a timidez tomava conta de mim. Nesse dia, quando a dona Gertrudes perguntou quem queria ler o que tinha escrito, fui o primeiro a levantar o braço. Com as pernas a tremer, subi ao estrado. A voz, essa, tremia ainda mais que as pernas. Fez-se um silêncio que ainda hoje consigo sentir. No final, quando terminei, temia ser gozado. Todos se levantaram e baterem palmas. A dona  Gertrudes,  disfarçadamente,  limpou  as  lágrimas,  abraçou-me  e  segredou: «parabéns, António! Essa menina é uma sortuda!».

Estás a ver aquela janela aberta, no segundo andar, no canto superior esquerdo, com a persiana semicerrada?! Essa era a minha sala. Este era o campo onde passávamos os intervalos. Abre a caixa, por favor.

– Uma bola de futebol!, digo eu espantado.

– Sim, a bola com que joguei no verão em que deixei para trás todos os medos; o verão em que descobri o amor. Quero que fiques com ela. Quero que inicies o novo ano, amanhã, sem medos.

Regressamos a casa. Trago a mão direita bem apertadinha na sua mão esquerda. Debaixo  do  outro  braço  trago  a  bola,  como  se  se  tratasse  de  um  troféu. Agora sim, anseio que chegue o primeiro dia de escola. Espero que a professora peça para escrever uma composição sobre as férias. Quero ser o primeiro a ler, com a bola aos meus pés.

Outubro
Amanhã é dia de teste de Estudo do Meio. Recordo uma das manhãs de verão que passámos juntos. Ouço a sua voz, como se estivesse a meu lado, a debitar os nomes dos rios e afluentes. No chão, com o cajado, desenha o mapa da Península Ibérica. A cada risco surge um curso de água e os rios ganham vida. “Este, como se chama?”, questiona. Sinto que estou num concurso, daqueles que passam na televisão, mas muito mais divertido.

Novembro
Mais um dia de escola que passa. Os meus pais, como sempre, esperam-me à saída. Hoje vamos à livraria do bairro escolher o presente de aniversário para a minha tia. Cada vez que entro numa livraria percorro milhas. Embarco no mundo das letras e deixo-me levar pela brisa libertada a cada página percorrida.

– Mãe, afinal o mundo não é apenas redondo.
– Então?!
– Pode tomar a forma que quisermos. De um livro, por exemplo. Este é sobre o mundo dos pastores, o mundo do senhor António. Podemos levar, mãe? Tenho saudades dele. Da sua serenidade e da sua sabedoria. Do modo carinhoso que segura a minha mão, quando passeamos juntos. Ontem comecei a contagem dos dias para o Natal, para o abraçar e passar as tardes à lareira, a ouvi-lo.
– Claro que sim!, diz a mãe com brilho no olhar, que se estende até à mão que percorre o rosto do menino.

Dezembro
Acabo de chegar à aldeia. Saio do carro. Fecho os olhos. Inspiro e sorrio. Cheira a lareira. E, agora sim, cheira a Natal. Sei que já é tarde, mas não resisto. Corro para a casa do meu amigo e vejo que ainda há luz. Bato à porta. “Quem será a esta hora?”, ouço-o murmurar, assim como os seus passos a dirigir-se para a porta, que range, quando se abre.

– Oh rapaz, és tu!
– Sou eu.

Estico os braços e, sem mais palavras, agarro o seu pescoço. Damos um abraço daqueles que fazem estalar os ossos. As lágrimas, de felicidade, lavam o rosto.

– Amanhã, bem cedo, volto e trago comigo o mundo.
– O mundo?
– Sim, o mundo.

Dia 24. O perfume da cevada acabada de fazer e o barulho do pão a brincar com a torradeira invadem a casa. Na janela do quarto delicio-me com o manto branco que cobre as montanhas, aquelas que abraçam a aldeia todos os dias. Olho para o relógio e percorro a intensidade do aroma que conduz até junto dos meus pais, na cozinha.

– Bom dia, mãe! Bom dia, pai! Dormiram bem?
– Bom dia, filho! Já estás acordado?, indaga a progenitora.
– Acordei agora mesmo.
– Hummm… Tens alguma fisgada! Conheço esse sorriso…
– Estou feliz! Apenas isso… Super feliz! Pai, ajudas-me a preparar uma surpresa para o senhor António?
– Claro que sim!
– Encontrei esta caixa vazia, no sótão, do telemóvel que oferecemos ao avô. Vamos enchê-la de sonhos, amor e mundo. Escolhes algumas fotos das férias de verão, aqui, na  aldeia. Escrevo  algumas  frases,  numa  folha  cor-de-manto-que-cobre-a-aldeia, todas ditas pelo meu velho amigo, claro! A última será: “Quero que inicies o novo ano, amanhã, sem medos”.

Terminada a doce tarefa, os meus pais dizem que têm gosto em passar a noite de consoada com o senhor António e o seu amor de sempre. É o melhor presente de Natal que alguma vez recebi. Enrolo o corpo franzino no cachecol que era do meu avô, como se fossem os seus braços a aquecer-me. Gorro na cabeça, dou um beijinho aos meus pais.

– Até logo! Já sabem que almoço com o senhor António. Ah… vou trazê-lo comigo!
– Espera! Leva as luvas, diz a mãe, sem sucesso.

Hora de jantar. Junto à lareira está a bola, o livro – o mundo dos pastores – e a caixa do telemóvel.

Ainda não acredito. Estou na aldeia, no calor dos meus avós, com os meus pais, o senhor António e o seu amor. Todos a partilhar a mesma mesa. Está na hora de distribuir os presentes. A minha inspiração recebe a caixa e diz: “Isto não é para mim, pois não?! Rapaz, disse-te que não gosto destas modernices. Não é isto que nos une.”

– Eu sei. Tem razão. Mas abra, abra. Apesar de não gostar dessas modernices é o modo simples para falarmos todos os dias. Sempre que nos apetecer.

Reticente, rasga o papel de embrulho. Abre a caixa e, entre um contido lacrimejar, sorri.  Segura  uma fotografia.  Os  dois,  sentados  no  cimo  da  montanha,  de  olhos fechados a sentir o nascer-do-sol. A sua mão esquerda segura a minha mão direita, bem apertadinha, como só ele sabe fazer. Fica em silêncio. Lê a última frase. Encontra ainda o livro, o seu mundo. Abraça-me. “Ah rapaz, afinal gosto destas modernices!” Agora sim, é Natal!

Anúncios

A nossa aldeia,…

a mais bonita, é da tua janela que a vejo.

Todos os dias regresso à janela do quarto da minha avó para ver o sol dar lugar à lua. É no infinito das montanhas que ele se recolhe e os tons alaranjados se mesclam com os verdes que me rodeiam. Ali, na janela do quarto da minha avó, ouço os chocalhos das ovelhas que calcorreiam as serras, na companhia do António, o pastor. Desde sempre que tenho um fascínio por este senhor. Acho até que ele tem um dom. Apesar da lonjura que nos separa, consigo ouvi-lo. Está longe e, simultaneamente, está tão perto. É como tu, avó. Também tens um dom. Brilhas todas as noites para mim. Vou contar-te um segredo… Nas noites de verão, quando todos estão a dormir, regresso ao teu quarto, à tua janela. Olho para ti  e sorrio. Consigo distinguir-te tão bem! O teu brilho é único e é meu. Fico ali, apoiado no parapeito a olhar para cima, até ao primeiro bocejo. Ouço a tua voz a contar-me uma e outra vez as histórias com que me embalavas. Nunca te disse, mas repetiste umas quantas. Não faz mal. Gostava sempre de te ouvir. Ah… desculpa não visitar-te no inverno, mas o frio da montanha não me deixa. No entanto, quer seja inverno ou qualquer outra estação, é da (sempre) tua janela que fico a admirar a nossa aldeia. Antes de regressar ao meu quarto, volto a sorrir e digo-te: obrigado, avó, por me fazeres sentir este encanto tamanho de pertencer à aldeia mais bonita.
P1270829