Sentir…

“O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender …
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…”

O Guardador de Rebanhos | Poemas de Alberto Caeiro | Fernando Pessoa

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Efemérides:
– Fernando António Nogueira Pessoa nasceu a 13 de junho de 1888, em Lisboa;
– Maria Helena Vieira da Silva nasceu a 13 de junho de 1908, em Lisboa;
– Dia de Santo António, santo padroeiro de Lisboa, nasceu a 15 de agosto de 1195 (informação não fidedigna).

E saem três ‘biba’s’… ‘Biba’ Fernando Pessoa! ‘Biba’ Vieira da Silva! ‘Biba’ St. António, a sardinha assada e o manjerico!

 

Deram as mãos…

“Deixaram tudo para trás… A começar pela vida.
Na Índia, o papel da mulher ainda não tem o valor que lhe merece e, foi também por isso que, Chanda sofreu de violência doméstica desde sempre. Demorou mais de meia década a voltar-se contra o medo que a fazia apenas sobreviver.
Foi pela manhã que decidiu fugir. Ele chegara novamente mal disposto e ela foi o bode expiatório de um problema que nem sequer conheceu. Kami tem apenas 9 anos e assistiu a tudo, como já acontecera por várias vezes e sempre com os olhos humedecidos de raiva. Mas sem nunca confrontar o pai, na melhor das hipóteses de assim o poder chamar. Esta manhã seria o abismo de uma vida já no cume há demasiado tempo.
Chanda aproveitou a ida do marido ao bar e começou a preparar duas malas de roupa, nas quais meteu a bomba de asma de Kami e pouco mais que o indispensável.
Saíram ao meio dia. Faltavam apenas quinze minutos para começar a viver.
Quando subiram o primeiro degrau do comboio, que os levava do inferno para fora, suspiraram de alívio e, aos poucos, Kami chorava entre soluços e lágrimas que lhe corriam fortemente do rosto. Creio que eram de felicidade, mas podia ser o peito a abrir-se para a esperança.
O comboio partiu e não olharam uma única vez trás. Deram as mãos e com as outras duas agarram-se com a certeza de quem parte para sempre. De um futuro que começa a dois, sem medo, violência, angústia e com a esperança de que um dia voltem a encontrar a felicidade…traçada por trilhos e carruagens sem fim, mas com um fim.
Hoje voltaram a sorrir e ainda que o coração padeça de cicatrizes, todos os dias voltam a acordar felizes e dispostos de as sarar para sempre.”
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A ideia partiu de uma ‘brincadeira’ – dar vida a uma foto que tirei numa viagem de comboio, em Bombaim. O Marco fê-lo melhor que ninguém. O grande Marco Gil. As palavras saem-lhe do coração e da alma. Gosto muito do modo intenso como escreve, mas confesso que este texto superou as minhas expectativas. Aliás, este texto superou-me. Estremeci, sentindo cada palavra.
Deixem-me ainda dizer que o Marco, além de escrever assim, fotografa ainda melhor. Para quem o quiser conhecer (se não quiserem, não sabem o que perdem!), ele anda por aqui:

http://www.marcogil.pt/

http://p3.publico.pt/category/free-tags/marco-gil

e

https://www.facebook.com/MarcoGilFotografia/

 

Açores, as pérolas de Portugal

5 de junho | Dia dos Açores, da Açorianidade e da Autonomia

“(…) a luz delicada dos Açores, o céu dos Açores carregado de humidade e forrado de nuvens que um pintor imitaria na tela com pequenos toques horizontais cor de chumbo, carregando-os e amontoando-os cada vez mais até à linha do horizonte. E é esta luz que me acompanha e nunca mais me larga,(…)”
As Ilhas Desconhecidas | Raul Brandão

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Minúsculo vs Infinto

De como um rectângulo pode ser infinito dentro dos seus limites; de como o Homem pode ter as mesmas características

    Leon Battista Alberti dizia que, antes de começar a pintar o artista deve desenhar um rectângulo e que esse rectângulo é a janela para a cena que se quer retratar. Este é o milagre da perspectiva: a lonjura faz as coisas pequenas, faz um milagre. Diz-se que o recipiente é maior, é sempre maior do que o conteúdo, e que o contrário não se pode verificar. É falso, como comprova a minha janela pequenina. Nela cabe uma paisagem gigantesca. É o milagre da perspectiva. Mas daqui devem concluir-se mais coisas, a saber:
     Coisa número um: num homem pequeno, minúsculo, pode assim caber algo muito maior do que ele. Dentro do homem cabem mares e paisagens, o infinito e o próprio Deus do Universo, o meu gato que já morreu e de que sinto uma tremenda falta.
     Coisa número dois: o Homem é uma janela pequenina. E com isto diz-se tudo o que há para dizer sobre o Homem. Diz-se que é minúsculo e diz-se que é infinito.
Mil Anos de Esquecimento | Afonso Cruz

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Harpa | Reykjavik |Islândia

Vida apaixonada

Há dias que, quando menos esperamos, somos abençoados. Atingimos um estado de leveza tal que se uma brisa se cruzasse connosco levar-nos-ia a todos os sítios onde fomos/somos verdadeiramente felizes.
No caminho cruzo-me com um peregrino. Sinto profunda admiração por quem embarca nestas viagens interiores. O brilho no olhar e o sorriso são a minha saudação a este grande “viajante”, sussurrando: ultreia.
A melhor descrição que, até ao momento, ouvi para explicar a dimensão da palavra ultreia foi da boca de Afonso Cruz. Julgo que já aqui o referi uma vez, mas há palavras que nunca me canso de ouvir/ler. Aqui está: “Ultreia que significa um passo mais além. É dar um passo além.(…) Quando temos medo, o que temos à nossa frente é um abismo, mas quando damos um passo em frente, o que temos à frente é uma ponte.”

“Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, (…).
(…), a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é o que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador, um despertador que nos acorda para a inevitabilidade dos nossos erros. (…) A solução seria termos todos uma caveira na mesinha-de-cabeceira, como fazem os monges cartuxos, para nos servir de despertador e todos os dias sabermos que temos de acordar, não para viver a rotina fatal do quotidiano, mas a vida apaixonada de alguém que ainda sabe que existem nuvens, céu, beijos.” 

Flores |Afonso Cruz

Há pessoas que passam por nós e, sem fazer a mínima ideia da nossa existência, fazem-nos tão bem.

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Sinto o teu coração…

… quando intensamente encostamos os nossos corpos um contra o outro. Nesse mesmo instante, sinto a tua alma. O mundo pára e aquele aperto mágico transformou segundos em minutos; em horas; em dias; em meses; em anos; … foi um abraço eterno e… ainda dura.

O que dizem os abraços

Juntar as pontas dos ombros e dar algumas palmadinhas nas costas não é um abraço. Escrever “abraço” no fim de um e-mail também não é um abraço. Indiferente ao desenvolvimento social e tecnológico, um abraço continua a ser duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

Esses rapazes que aparecem com cartazes a oferecerem abraços nos festivais de verão têm graça e talvez sejam bem-intencionados, mas fazem publicidade enganosa. Não são os abraços que provocam as ligações, são as ligações que provocam os abraços. Um abraço não é apenas duas pessoas que se juntam e se apertam uma de encontro à outra.

Um abraço tem muita importância.

Quando eu era uma criança, teria talvez uns nove ou dez anos, o meu pai deu-me um abraço na cozinha da nossa casa. Era de madrugada porque essa era a hora em que, naquele tempo, se saía da minha terra quando se ia para Lisboa. O meu pai tinha uma operação marcada no hospital, estava vestido com as roupas novas e tinha medo. Enquanto me abraçava, o meu pai chorou porque, durante um momento, acreditou que podia nunca mais me ver. Os braços do meu pai passavam-me pelos ombros, a minha cabeça assentava-lhe na barriga, sobre o pullover. A lâmpada que tínhamos acesa por cima da cabeça espalhava uma luz que amarelecia tudo o que tocava: a mesa onde jantávamos todos os dias, o ar que ali respirámos em tantas horas anteriores àquela, em tantas horas ignorantes daquela. O meu pai usava um aftershave muito enjoativo, barato, que alguém lhe tinha oferecido no Natal. Agora mesmo, consigo ainda sentir esse cheiro com nitidez absoluta.

A operação correu bem. Depois do susto, depois da convalescença, o meu pai voltou para casa com uma cicatriz grossa e roxa na barriga, ficava à vista quando a camisa lhe saía para fora das calças ou na praia, apesar de usar os calções exageradamente puxados para cima. Depois disso, tivemos direito a nove anos em que não voltámos a pensar em despedidas.

Durante muito tempo procurei em toda a minha memória: as lembranças de quando regressou da operação ou, depois, quando tínhamos a mesma altura ou, mesmo depois, quando ficou doente pela última vez. Mas abandonei as buscas, não consigo recordar outra ocasião em que nos tenhamos voltado a abraçar. Essa madrugada na cozinha, a luz amarela, o aftershave, foi a única vez em que nos abraçámos na vida.

Não afirmo com leveza que um abraço tem muita importância. Há quinze anos que escrevo livros apenas sobre esse abraço.”

José Luís Peixoto | Notícias Magazine | 22 de novembro de 2015

Distâncias infinitas

“Expliquei à professora que na sala de aula tudo era perto e que nada se distanciava de nada como nos montes da paisagem. Mas a professora negou. Disse-me que o rosto de cada um também era imenso como a paisagem e, visto com atenção, tinha distâncias até infinitas que importava percorrer.
Nesse dia, voltei da escola como se tivesse a tampa da cabeça aberta e os pensamentos me fugissem para o vento.
(…)
Percebi que para dentro de nós há um longo caminho e muita distância. Não somos nada feitos do mais imediato que se vê à superfície. Somos feitos daquilo que chega à alma, e a alma tem um tamanho muito diferente do corpo. (…) O rosto começa onde se vê e vai até onde já não há luz nem som. (…) Entendi que o rosto é extenso e infinito, capaz de expressões que vamos conhecendo e outras que nunca vemos. Toda a vida precisamos estar atentos, senão vamos perder muito do mais importante que acontece em nosso redor. Como se houvesse um incêndio mesmo diante de nós e nem sequer o percebêssemos antes de estar tudo completamente queimado.
O Rosto | Valter Hugo Mãe

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