Trrrriiiiim…

O despertador tocou. O Equinócio da Primavera boceja e espreguiça-se.
– Anda lá, acorda!, diz o Solstício de Inverno.
– Tem calma. Só entro às 16h15., responde, preguiçosamente, o Equinócio.
– Tens de te preparar para entrar a preceito. Os campos estão ansiosos pela tua cor. A brisa suspira, ansiosamente, pelo teu perfume.
– Calma!! O artista Henri Matisse dizia: “Haverá sempre flores para aqueles que as quiserem ver”. Além disso, tenho os próximos 92,79 dias,  no Hemisfério Norte, por minha conta.
– Sim, eu sei. Mas tens uma energia diferente. Aguardam-te sempre com um entusiasmo tão caloroso. Despacha-te!!

Em breves instantes o Sol passa no equador celeste. Os campos e a brisa gritarão, em uníssono: sê bem-vinda, Primavera!

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Acreditas?

«Cada casa tem tantas janelas quantos os dias do ano», diz o meu avô. Fitamos o olhar, sorrimos, mas não percebo.
– O que queres dizer com isso, avô?
Segura a minha mão com as suas e diz: um dia vais perceber.

Domingo. Aproxima-se a hora do regresso.
– Mãe, pai, peço-vos que não me distraiam na viagem. Tenho um quebra-cabeças por descobrir.
– Qual?, pergunta a mãe.
– Contar janelas.
– Sabes que vais adormecer a meio da contagem, não sabes?!, diz o pai com sorriso malandro.
– Não vou. Não vou desiludir o avô.
Entramos no carro para mais um regresso a casa. Começa a contagem.

– Estamos quase a chegar.
– Duzentos e oitenta e um; duzentos e oitenta e dois; duzentos e oitenta e três;… Não me distraias, por favor.

Chegamos. Duzentos e noventa e quatro. Este é o número de janelas que contei da aldeia até chegar a casa. Como é que o meu avô diz que a nossa casa tem trezentas e sessenta e cinco janelas?! Tenho de descobrir.

Hora de dormir. Acho que vou sonhar com janelas.
Os meus pais entram no quarto para o beijinho de boa noite, como sempre fazem. Reparo que o meu pai segura uma fotografia.

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– Ahhhhh… É esta a casa a que o avô se refere?
– Também e não só. – responde a mãe.
– O menino que aqui vivia, todos os dias escolhia uma janela diferente para iniciar o dia. Não falhava uma única vez. Era a forma que tinha para acreditar que o dia seria diferente do anterior. Como não temos tantas janelas, podes, todos os dias, abrir a tua, sorrir e, de braços abertos, dizer ao teu coração que estás preparado para as novas oportunidades que o dia te vai oferecer. Não interessa o número de janelas. O importante é acreditar no que de bom temos para dar e receber.

– Então o avô tem razão. Todas as casas têm tantas janelas quantos os dias do ano. Basta acreditar. Eu acredito! E tu mãe? E tu, pai?

A resposta surge acompanhada com um beijo na testa: também, filho.

De volta às rotinas

Sábado de manhã. Entro no café, com o jornal debaixo do braço. Olho para todas as mesas, mas escolho a de sempre, a dos últimos vinte anos. Sem pedir, o café pingado chega à mesa, acompanhado com um sorriso. O barulho da chuva torrencial dá lugar ao sol que invade a minha janela. E é aqui, ao seu lado, que estarei nas próximas duas horas.

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Islândia IV

Um dos “poderes” dos sonhadores é viajar, com frequência, sem sair do sofá. Viaja-se pelo ainda desconhecido ou volta-se a locais antes visitados.

Imbuída pelo frio que se faz sentir, apeteceu-me ir até à Islândia, mais concretamente a Leirhnjúkur,  que faz parte da região vulcânica do Krafla. Se por um lado a Terra do Gelo com os sedutores  glaciares encanta qualquer um, a parte  correspodente à Terra do Fogo não se deixa ficar atrás.  A intensa atividade vulcânica da Islândia ajudou a moldar a sua deslumbrante paisagem. Em Leirhnjúkur percorro o que o interior da Terra ofereceu. Caminho sobre um vulcão ativo. O solo está quente. Durante um par de horas perco-me entre os campos de lava e deixo-me levar pelo mistério que as fumarolas fazem sentir. É a Mãe Natureza a conduzir este trilho soberbo.

Curiosidades:
A primeira erupção ocorreu entre 1724-29, conhecida como os Fogos de Myvatn. Após 250 anos de dormência, o Krafla entrou em erupção de 1975 a 1984, período denominado  de Fogos do Krafla.

Nos Açores, os campos de lava tão característicos das pérolas atlânticas e formados pelas erupções vulcânicas, são vulgarmente conhecidos por “Mistérios”, atendendo a que os habitantes não tinham justificação para tais fenónemos naturais.

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Vamos fazer magia?

“Cubos

Husserl usava um cubo para explicar aos seus alunos o conceito de transcendência na imanência. Imaginemos um cubo pendurado à nossa frente. Ao observá-lo de um ponto fixo nunca vemos mais do que três faces, ou seja, não podemos ver as coisas de uma forma total. Tudo o que existe é formado por partes visíveis e invisíveis, neste caso específico, num máximo de três faces observáveis para cada ângulo, e as outras três ocultas, perfazendo um total de seis. Assim, a presença de algo pressupõe uma ausência e todas as coisas são construídas precisamente por estes dois factores. A transcendência não seria então domínio da metafísica, mas apenas parte material que está ausente à nossa sensibilidade, faria parte das coisas, ser-lhe-ia imanente.
Apesar da limitação de não conseguirmos ver uma parte da «realidade», se tivermos outro observador, de um ângulo oposto ao nosso, temos a «verdade», o cubo com seis lados (desde que os dois observadores comuniquem entre si). Também é possível ver a totalidade do mesmo poliedro se viajarmos para o outro lado. Para termos essa noção total de um cubo precisamos de uma de duas coisas: ou do outro ou de viajar. O que muitas vezes são a mesma coisa, pois a viagem implica a alteridade, implica muitas vezes ser o outro. (…)


Alea jacta est

Se estivermos imóveis, só conseguimos  ver um máximo de três lados de um cubo, mas um jogador, ao olhar para um dado, «vê» apenas a face que ficou virada para cima. E esta é muitas vezes a nossa maneira de olhar o mundo: para a face das nossas expectativas, medos, simpatias e preconceitos, ignorando as outras visíveis (mais duas no máximo) e as invisíveis (pelo menos três).
Nos casinos, as pessoas atiram os dados com força quando querem números altos e com delicadeza quando precisam de números baixos. A magia está sempre presente na nossa vida. Sentimos, sabendo por vezes que é apenas uma ilusão, que podemos controlar o mundo, dissipar o mistério, perceber o destino, domesticar o que é invisível e influenciar o século. Ou dados.
(…)
Enquanto o dado gira, o mundo é feito de probabilidades e é difícil obliterar o sentimento de magia que se apodera de nós, de que podemos com os nossos desejos alterar a realidade. Esse sentimento é um vestígio residual da infância, mas tem sido também através desse sentimento, desse resquício de quando éramos de facto grandes magos, do tempo em que acreditávamos em coisas que as pessoas adultas e sérias e importantes consideram absurdo ou infantil ou aventureiro, que temos conseguido mudar a sociedade. Porque apesar de tudo, por vezes ainda se faz magia.”

Jalan Jalan | Afonso Cruz

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Harpa | Reykjavik