Quieto Abrigo

Sexta-feira – 15 de junho
Último dia de aulas. Como dita a tradição, partimos para a aldeia nesse mesmo dia. Apesar de não verbalizar, os meus pais sentem nos seus corações as saudades que carrego comigo. Saudades da aldeia. Do cheiro. Do silêncio. E a saudade-mor, com nome especial: António… o meu senhor António.
Os dias são longos e chegamos antes do sol adormecer. Corro até à casa dele para o abraçar. Para sentir os seus braços tomarem o meu peso.

Sábado – 16 de junho
Acordo cedo. Tenho o coração leve. E grande. Julgo que são efeitos da aldeia.

– Bom dia! Bom dia, meu amigo! Vamos passear? Onde me vais levar hoje? Quero perder-me contigo…

– Oh rapaz, madrugaste! Estou aqui a pensar… Gostas de casas abandonadas?

– Gosto, pois. Apesar de abandonadas, são casas cheias de vida. -, diz o rapaz do alto da sua tenra sabedoria. –  Gosto de as visitar, descobrir, sentir.

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Entramos no abrigo de paz e doce união…
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Deambulo, olho, cheiro. Toco com as pontas dos dedos, deixando rastos invisíveis nas paredes, nas memórias. Fotografo com os olhos. Guardo. Penso: gostaria de adormecer neste casa, e depois sentir o mistério e o fascínio de acordar num sítio desconhecido. Um dia terei coragem…

– Senhor António, um dia podemos dormir aqui?

O fascínio não permite esperar pela resposta. Continuo…

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Gosto de me sentar no chão e ouvir o silêncio,  sentir esse silêncio. Gosto de embaciar os vidros das janelas com a minha respiração lenta e imaginar como seriam as pessoas que teriam olhado através dessas mesmas janelas, há muitos anos; gosto de imaginar quais seriam os sonhos dessas pessoas.
Gosto de sentir a companhia das memórias alheias que ainda pairam na atmosfera, como se fossem partículas de pó quase, quase invisíveis que flutuam no ar e, por vezes, pousam no meu cabelo causando uma cócega quase, quase perceptível. (Percebo agora  o boné do senhor António. É careca.)
Gosto de me sentir fora do tempo, fora do mundo, fora de mim. Noutro tempo, noutro mundo, noutro mim; mas continuando eu.
Gosto de casas abandonadas. Gosto de as visitar, descobrir, sentir.
Gosto de imaginar que sorriem para mim. Gosto de as fazer sorrir.
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[Parceria nas palavras: Paulo Kellerman]
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